CIDA SANTOS
SENTIMENTOS E SONHOS GANHAM FORMAS E CORES NA PONTA DO SEU LÁPIS
SENTIMENTOS E SONHOS GANHAM FORMAS E CORES NA PONTA DO SEU LÁPIS
Eduardo Bastos
Aparecida Souza dos Santos (Cida) tem 20 anos e hoje reside no município de São Cristóvão, na companhia de cinco meninas, num apartamento bancado pelo Programa Residência Graduação, da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Cida residia até pouco tempo aqui em Lagarto com seus pais, Arnaldo Justino (Nem) e Maria Ivonete de Souza Santos (Nete), numa casa localizada na Rua Travessa A, próximo ao Colégio Estadual Dom Mario Rino Siviere. Aparecida tem como irmãos Alisson Souza dos Santos, 17 anos; Maria José Souza dos Santos, 19 anos; e Thiago Souza dos Santos, 8 anos. Moisés e Elisângela também são Irmãos de Cida, fruto de um primeiro casamentos do seu pai.
Atualmente, Cida estuda na Universidade Federal de Sergipe, onde cursa Design Gráfico. A Infância dessa moça não foi diferente da de milhares de brasileiros, e, em sua casa, havia poucos recursos, alguns ou nenhum brinquedo. Mas ela diz com emoção que, apesar de toda simplicidade, de todas as adversidades, teve uma infância maravilhosa. Aparecida e seus manos sempre brincaram muito, com tudo que encontravam pela frente. Ela e seus irmãos eram felizes, e os responsáveis por essa felicidade eram seus pais, pois, mesmo diante de uma vida de pobreza material, eles sempre buscavam manter os filhos distantes dessa realidade - não obstante, Cida e seus irmãos, à medida que iam crescendo, percebiam nos olhares preocupados de Nem e de Nete que não estava sendo fácil tocar a vida. Porém, os genitores dessa garota sempre se mantiveram fortes, e, para essa ela e seus irmãos, eles são exemplos de honestidade, de força, de fé e simplicidade. A eles Cida deve tudo que é hoje e tudo que possa vir a ser amanhã. Aparecida afirma estar em permanente evolução e espera um dia ser a metade dos seres humanos que seus pais são. A mãe e o pai dessa moça são seus maiores motivos para ela não desistir de crescer na vida como pessoa e como profissional. O ‘painho’ e a ‘mainha’ de Cida toda vida a ensinaram a ser forte, a nunca abaixar a cabeça para ninguém, a seguir em frente mesmo que nada estivesse dando certo em determinado momento. A ensinaram ainda a se colocar no lugar dos outros, a entender que o sofrimento alheio também é o seu sofrimento, e a amar o próximo.
Cida tinha entre seis a sete anos quando seu ‘painho’ decidiu se mudar com a família para a cidade de Lagarto, com a promessa de que financeiramente a vida iria melhorar - e Cida diz que de fato melhorou. Seus primeiros anos escolares em Lagarto foram vividos frequentando a Escola Manuel de Paula. Quando avançou para a primeira série, ela foi estudar na Escola Estadual Dom Mario Rino Siviere, onde passou a maior parte da vida escolar. Aparecida confessa que nessa escola viveu ótimas experiências, conheceu pessoas maravilhosas e professores incríveis. Foi no Dom Mario também que Cida descobriu o amor pelo esporte, a paixão pela leitura, o interesse pelo estudo e (claro) o fascínio pelo desenho. Aparecida Souza dos Santos confessou que sempre contou com o incentivo dos professores do Silvio Romero, colégio estadual onde concluiu o 2° grau. Ali, essa menina conheceu ótimos professores, que sempre a incentivaram a seguir em frente e a não desistir dos seus sonhos.
QUEM É CIDA?
Nossa, que pergunta difícil! Então... eu sempre digo que falar sobre mim é algo muito difícil, porque geralmente eu só olho mais o lado negativo de mim mesma. Mas eu diria que sou uma pessoa bastante curiosa em relação a querer conhecer o mundo, conhecer as pessoas, conhecer mesmo aquilo que não me convém, entender melhor o desconhecido, aquilo que eu não aceito como verdade. Eu penso que precisamos conhecer algo, mesmo que não concorde, para ter argumentos contra ou a favor. Eu sou muito curiosa. O desenho mesmo… primeiro o desenho aconteceu num momento da minha vida em que eu era muito ativa, gostava de jogar e brincar, e, por algumas complicações de saúde eu tive que ficar parada por um tempo. E eu não gosto muito dessa coisa do ócio, de ficar parada - eu fico muito ansiosa. Então eu pensei: meu Deus, o que eu vou fazer?! Estava muito entediada! Aí eu disse: ah, bom, já que eu não posso estar correndo nem jogando, eu vou desenhar, porque desde criança eu rabiscava algumas coisas, mas não havia identificado ainda como uma paixão, talvez por, na época, estar muito ligada à música, então meu foco era ser cantora, eu tinha a ilusão de que minha voz era boa. Eu só descobri mesmo que poderia desenhar, que queria desenvolver melhor meus traçoa, há oito anos.
CIDA, QUAL É A PRIMEIRA LEMBRANÇA QUE VOCÊ TEM DA VIDA?
Nossa! Eu acho que é da danação de criança, de brincar, correr - porque eu sempre fui muito danada, eu sempre gostei muito de brincar. Na minha infância eu brincava muito com meus irmãos, a gente sempre gostou muito de brincar e de correr, e tinham os amigos… Eu gostava muito de esportes, principalmente de handebol. Eu tive uma infância pobre, basicamente não tinham muitos recursos, mas, com relação à educação que meus pais me deram e ao amor que a gente tem ali dentro da família, e a relação com meus irmãos, graças a Deus sempre foi algo para mim muito produtivo, muito bom, que me enriqueceu como pessoa e me ajudou a ser o que sou atualmente. Na infância, eu via o esforço dos meus pais para trazer alguma coisa para dentro de casa. É até mesmo complicado falar dessa postura dos meus pais, porque vejo eles como pessoas muito guerreiras, que passaram e passam por muitas adversidades, mas a vida é assim. A gente passava por muitos problemas, mas eles se esforçavam para que a gente não percebesse de fato o que estava acontecendo. Mas a gente percebia o jeito como eles estavam. Mas enfim.. eles sempre procuraram é… meus pais sempre me incentivam bastante. Eles perceberam minha paixão pelo desenho, e estão sempre do meu lado. Mas é isso... o que eu lembro da infância é só danação, brincadeiras, tem as partes ruins, as necessidades e tudo mais. Mas quando se tem amor isso é o de menos, não é?
VOCÊ SEMPRE ESTUDOU EM ESCOLA PÚBLICA?
Sim, eu sempre estudei em escolas públicas. Assim que cheguei em Lagarto aos seis anos eu estudei primeiro [na escola] Manuel de Paula, localizada no bairro Campo da Vila, depois no Dom Mario - minha vida escolar foi praticamente toda no Dom Mario. Quando passei para o primeiro ano, eu vim para o Colégio Estadual Sílvio Romero. Do Sílvio Romero só sai mesmo no terceiro ano, quando passei através do ENEM para a Universidade Federal de Sergipe.
VOCÊ SEMPRE FOI UMA BOA ALUNA?
Então, eu costumo dizer que tive uma fase de aluna muito tímida, e, por ser muito tímida, os professores diziam que eu era uma boa aluna. Mas eu não me achava muito estudiosa. Levei a sério isso de estudar mesmo a partir da 7ª série. Aí eu passei a correr atrás, a procurar dicionários, a ler os livros. Atualmente, eu acho que estudar e ler é uma das coisa importante para você evoluir como ser humano, não somente isso, mas se informar te ajuda a analisar melhor a realidade. Então, foi a partir da 7ª série em diante. Antes eu era bem tímida - ainda sou, mas antes eu era extremamente, tipo de ficar muito nervosa nos trabalhos e até passar mal. Mas ultimamente eu procuro ter um controle maior sobre a minha timidez - porém, ainda fico meio nervosa quando eu vou falar. Mas aí eu… é meio complicado isso.
VOCÊ FEZ CURSINHO PARA INGRESSAR NA UNIVERSIDADE?

FALE DO IMPACTO DE INGRESSAR NA UNIVERSIDADE
Cabeça erguida e um olhar triste ou cansado... É um olhar de quem não possui a certeza do futuro, de quem está a buscar forças para seguir em frente mesmo com todo cansaço. Os pássaros saindo de seu peito representam coisas e pessoas que precisou deixa ir, pois sabia que por mais difícil... assim seria melhor. A passagem por onde saem os pássaros está quebrado, o que indica que abdicar de coisas e pessoas que o fez bem em algum momento, não foi algo fácil, exigiu muito de si. Enfim, tenho um carinho muito grande por esse desenho, pois assim é minha vida. Abdiquei de muitas coisas, assim como qualquer um precisa abdicar para conseguir outras que serão melhores. Não foram escolhas fáceis, hoje tudo parece muito simples, mas, não foi, foi desgastante. Assim como outros desenhos, há outras interpretações possíveis... (Cida Santos)
QUANDO FOI QUE VOCÊ FEZ O PRIMEIRO DESENHO EM SUA VIDA?

Desde criança eu sempre rabisquei. Eu até fui uma vândala, rabisque o livro da escola (RISOS). Mas, o primeiro desenho que fiz para dar continuidade, que me moveu a querer estudar a fundo o desenho foi há aproximadamente oito anos, e foi como eu já falei, eu tinha passado por algumas complicações de saúde e eu fiquei sem poder fazer as atividades que eu estava acostumada a praticar. Na época eu tinha o quê? 12 anos! Eu era uma pré-adolescente e gostava muito de brincar. Mas me vi obrigada a ficar parada. Aí eu peguei uma folha de papel e alguns lápis de cores - que até hoje são os meios preferidos para finalizar meus desenhos, porque eu acho desafiador. Meu primeiro desenho foi uma modelo, pois eu lembro que meus primeiros rabiscos tinha a ver com roupas, uma vez que minha mãe comprava revistas, e eu ficava olhando, tinha a mania de ficar folheando as revistas para ver os tecidos e os caimentos das roupas. E eu pensei em como queria representar aquilo através do desenho. Aí eu fiquei a rabiscar e meu primeiro desenho foi uma menina, uma modelo. Passei então a retratar apenas modelos - o desenho de moda, como falam. Fiquei, a partir daí, de três a quatro anos só fazendo desenhos de moda. Só que, de tanto desenvolver, ver referências e estudar, eu senti a necessidade de ter o desenho como uma forma de desabafo, de representar algo além de roupas. Eu passei a desejar colocar no desenho alguns elementos que, de algum modo, representassem o que eu estava sentindo naquele momento, ou alguma coisa que eu vi, que eu observei, que me incomodou. São coisas que eu coloco de uma forma sutil, porque, como eu já falei para algumas pessoas, para mim é como se eu estivesse contando um segredo através do desenho. Às vezes eu procuro passar uma mensagem sem deixar o que quero dizer muito explícito, até porque são coisas bem pessoais mesmo. Outras são desabafos, reproduzem aquilo que vejo no cotidiano. Atualmente meu desenho está passando por uma fase em que eu procuro questionar essa questão do padrão, porque, desde criança, sempre me senti incomodada com essas coisas de as pessoas que são gordas serem vistas negativamente [dentro do mercado de moda]. Sempre me incomodou muito também essa coisa de um negro não poder ser representado em qualquer área, ou estar participando de qualquer evento e as pessoas olharem e dizerem: nossa, um negro! Com meu trabalho, eu tento contribuir para que um dia o negro possa ser representado numa pintura ou até mesmo num comercial, e isso seja aceito com naturalidade pela sociedade. Em nosso país o negro ainda é visto como se a cor de sua pele medisse o grau de sua inteligência e sua capacidade de fazer as coisas. Eu comento com meu namorado que eu tenho vontade de que as pessoas olhem para meus desenhos e elas percebam que ali está uma pessoa que pode ser representada como qualquer outro ser humano que possui suas dores, sua beleza, seus sonhos e medos. Têm alguns desenhos meus que eu procuro fazer essa ligação do homem com a natureza, de buscar essa relação que deve ser sempre pacífica, isso depois de ver muitas fotografias que possuem essa temática. Eu gosto de representar alguns elementos da natureza, como flores, e principalmente borboletas, como uma questão simbólica mesmo.
QUAL O PRIMEIRO DESENHO SEU QUE ALGUÉM ELOGIOU E TE DEU A CERTEZA QUE VOCÊ PODERIA DESENHAR?

CIDA, VOCÊ JÁ HAVIA ESTUDADO TÉCNICAS DE DESENHO ANTES DE INGRESSAR NA UNIVERSIDADE?
Então, eu nunca frequentei um curso, apesar ter muita vontade. Mas, por falta de condições financeiras isso não foi possível. Mas eu fui atrás. Num primeiro momento eu desenhava por intuição. Só que depois eu percebi que precisava evoluir, porque o meu conhecimento já tinha meio que se esgotado ali. Sendo assim, me vi diante da necessidade de ir atrás de novas técnicas, de novas formas de pintura. Então, eu passei a pesquisar, porque você sabe como é: computador mesmo eu só tive a partir dos 14 anos. Quando meu pai conseguiu comprar um computador para a gente eu passei a pesquisar, a assistir vídeos e a ver alguns sites que traziam novas técnicas e novas formas de representações. E foi aí que eu descobri que a minha paixão mesmo é pintar com lápis de cor. Eu tenho muita vontade de desenvolver a técnica de pintura com tinta mesmo, mas no presente eu quero mesmo é desenvolver a técnica do lápis de cor. Eu vejo algumas artistas e eu digo: “gente, meu Deus!, eu quero chegar a esse nível”. Os mundos da arte e do design são maravilhosos. Você encontra várias formas de representações. É algo que realmente gosto e me move.

Esse é um desenho que apresenta elementos da natureza. Ultimamente tenho visto ensaios fotográficos que se utilizam desta temática, a relação do homem com a natureza. E as fotografias que de fato me levaram a buscar representar essa harmonia entre o homem e ou mulher com elementos da fauna e flora nos meus desenhos foram a de um fotógrafo chamado Predrag Pajdic. Aqui busco equilibrar a beleza de ambos. As borboletas como na maioria das vezes é utilizada para representar a busca pela liberdade e a transformação espiritual. Muitos dos meus desenhos são retratados com pouca ou nenhuma roupa. Isso é uma forma de preservar a expressão corporal e em alguns casos o movimento do mesmo e indicar que ali estou colocando o ser na sua forma natural, despindo seu corpo, retirando as futilidades para focar naquilo que realmente deveria ser preservado e cuidado, que são os nossos sentimentos. A nudez corporal para mim não é tão importante, ou profunda quanto a nudez da alma, não vejo muita surpresa em um corpo nu. O que há na alma daquele corpo sim, é complexo. Quando há muita roupa, normalmente são desenhos voltados mais para a moda, que algumas vezes eu faço, já que foi assim que comecei, e é algo que gosto de fazer também. (Cida Santos)
TEM ALGUÉM QUE INFLUENCIA VOCÊ, OU NÃO?
Têm pessoas que me inspiraram a continuar, porque têm momentos em nossas vidas que a gente pensa em parar por causa das dificuldades. Teve um tempo que eu passei um período sem desenhar, e aí eu acho… foi mesmo por perceber: “poxa, eu gosto disso!” Porque, antes, meu sonho era ser cantora. Eu tinha a ilusão que eu tinha a voz boa (muitos risos). Eu tinha a ilusão que minha voz era boa, então eu queria ser cantora, mas aí, quando descobri o desenho, e devido a algumas coisas que aconteceram em minha vida, eu parei por alguns meses - por falta de inspiração mesmo, de dizer: “nossa, não está saindo nada…” Alguns problemas financeiros em casa, os problemas aumentando, aí a pessoa fica naquela coisa: “poxa, não tenho mais inspiração para desenhar”. Depois eu fui percebendo que é uma coisa que me liberta das complicações, dos momentos ruins. Quando eu me debruço sobre uma folha e começo a desenhar é um desabafo que eu faço, é uma forma de desabafar e conversar porque eu não consigo me expressar direito com as palavras. Então, eu prefiro mesmo me expressar através do desenho. Mas quando eu entrei na universidade fiquei mesmo bastante tempo desmotivada a continuar a desenhar. Aí foi quando eu conheci meu namorado e ele me incentivou… ele me incentiva muito, muito mesmo. Ele sempre está ao meu lado e em momento nenhum… porque, para mim a palavra liberdade é sagrada, sabe? Eu sempre procurei relações - até mesmo nas amizades e em relacionamentos amorosos - em que eu tenha liberdade. Porque eu acho que o que move o ser humano é a liberdade. Se você se sente preso, ou prende alguém, ali você ceifa toda uma trajetória, todo um sonho que você quer para si. Então, ele nunca, em momento nenhum, me fez sentir presa. Ele sempre está ao meu lado dizendo: “olha, desenha!”. Ele até me dá uma bronca quando eu não estou desenhando: “cadê o desenho!?” Quando ingressei na universidade eu passei um bom tempo desmotivada; desenhava assim… mas não era com aquele entusiasmo. Então, digamos assim, eu tenho pessoas que me motivam e ele, amigos meus, minha família e principalmente meus pais [me motivam] sempre mais. Eu sempre digo aos meus amigos da universidade que lá eles são a família que cuida de mim, porque depois que eu fui morar lá passo um bom tempo sem ver meus pais. Eles estão sempre do meu lado dando conselhos. Graças a Deus, as pessoas e os amigos sempre estão do meu lado me incentivando. É isso, essas pessoas que estão ao meu lado são minha influência, e, por todo o carinho que dedicam a mim, sou muito grata a elas.

CIDA, SEU DESENHO É PLANEJADO OU ELE É MAIS INSPIRAÇÃO?

VOCÊ CONFESSOU QUE GOSTA MUITO DE MÚSICA. O QUE É QUE VOCÊ OUVE?
Quando estou desenhando gosto muito de ouvir músicas. Gosto especialmente de ouvir uma banda chamada Nightwish, que é uma banda de metal sinfônico. E essa junção entre a música clássica e essa coisa um pouco mais agressiva do rock me agrada muito. Eu acho o som do piano maravilhoso, e eu queria aprender a tocar esse instrumento. Eu gosto de ouvir Mozart, Beethoven… tem a galera nova que gosto muito, como Yann Tiersen e Yiruma… não sou muito de entender, mas pego as playlists de músicas clássicas e começo a ouvir… gosto muito também de MPB… também tem um cara, Sérgio Sampaio, que até foi o meu namorado que apresentou, e que eu gosto muito. Eu nunca tenho um cantor preferido; eu tenho estilos.
CIDA, O QUE É QUE A UNIVERSIDADE VAI FAZER POR SEU TRABALHO?
O curso vai me ajudar muito a desenvolver os meus projetos futuros, me diferenciar no mercado. Entender melhor questões projetuais, coisas que eu não possuía ideia de como fazer e agora consigo entender melhor, porém ainda tenho um longo caminho pela frente. Mas você percebe facilmente a diferença dos trabalhos pela questão teórica, porque você estuda teoria da gestalt, percepção visual, questões de cores, semiótica, enfim, coisas que parecem simples, porém não são - não pelo menos para mim -, e que fazem toda diferença. Então, tem toda uma teoria por trás, e eu creio que isso vai me ajudar muito a desenvolver de forma mais fluida. Porque eu acho que a universidade, apesar de todas as dificuldades, é o lugar para aprender, é a chance que você tem de reunir referencias e maturidade para lá fora dar continuidade aos estudos, o designer nunca para de estudar, aliás muitas outras profissões são assim. O que importa mesmo é o seu engajamento objetivando avançar na profissão, porque não adianta você… a gente tem que fazer bem, porque a gente está fazendo para pessoas, então não adianta chegar e dizer simplesmente que vai fazer algo apenas por fazer, a gente tem que fazer com segurança para que as pessoas sintam essa segurança em seu trabalho. Então eu acho que a universidade vai me ajudar muito e de alguma forma, mas é preciso buscar. É como minha professora fala: “na sala de aula é de 10 a 20 por cento. 80 por cento é a gente mesmo, buscando, estudando… procurando desenvolver projetos por fora mesmo. Eles [os professores] dão aquelas coisas, mas não dão tudo, e a gente é quem tem de correr atrás de alguma maneira, pois não adianta ficar esperando que as coisas caiam do céu. Entendo que a universidade está me ajudando muito, até mesmo nessa questão de maturidade e responsabilidade, nessa coisa de eu entender as diferenças entre as pessoas. A universidade te ensina a conviver no meio de pessoas totalmente diferentes, com pensamentos complexos, e mesmo assim tolerantes. Porque o que mais a gente vê no mundo é a intolerância, tanto por questões políticas, religiosa ou até por diferenças de pensamentos. As pessoas não conseguem sentar para conversar. Elas gritam, elas preferem ir atrás da violência. A universidade está servindo também como um meio de observação, porque eu gosto muito de observar o comportamento das pessoas, porque eu acho que, ao observar o seu comportamento e os de outras pessoas você percebe em que você precisa melhorar.
E EM RELAÇÃO A CAMPO DE TRABALHO, ONDE ATUA O PROFISSIONAL DO DESIGN GRÁFICO?
A gente trabalha em diversas áreas da comunicação visual, como o meio editorial, design de interface, desenvolvendo sites, no cinema (desenvolvendo animação)... Eu mesmo tenho muita vontade de desenvolver animação, mas para isso vou precisar ir atrás de outros cursos ...
HÁ ALGUMA RELAÇÃO ENTRE DESIGN GRÁFICO E FOTOGRAFIA?
Sim, nosso curso tem uma matéria de fotografia - e eu estou muito feliz com isso, quero pegar logo essa matéria (RISOS). Tem muito essa coisa da fotografia porque a gente trabalha com comunicação visual… a forma como a gente vai representar mesmo nossos projetos… a fotografia está muito presente também. Eu particularmente a utilizo muito para estudar proporção, jogo de luz e sombra...

Eu estava assistindo o filme Para Sempre Alice quando pensei nesse desenho. Pensei mais precisamente numa cena em que a personagem central responde uma pergunta feita por sua filha, que não me recordo no momento, mas a fala foi a seguinte: "Quando eu era bem nova, na segunda série, minha professora falou que borboletas não vivem muito, algo em torno de um mês, e fiquei tão chateada... Fui para casa e contei para a mamãe. E ela disse: ' É verdade. Mas elas têm uma linda vida'. E isso me faz pensar na vida da minha mãe, na da minha irmã. E, de certa forma, na minha vida." Esse fragmento foi retirado do site "mensagens com amor". Na historia a protagonista havia perdido sua mãe e irmã num acidente, e ela estava sofrendo de Alzheimer precoce. Ouvindo aquilo, passou um filme pela minha cabeça, comecei a refletir em como aqueles que marcam nossa vida, aqueles que possuem uma alma admirável, muitas vezes se vão de forma tão rápida. Eu que sei que, por mais doloroso que seja, devemos lembrar-nos deles como borboletas, que mesmo frágeis e passageiras, embelezam nossas vidas, são profundas para nós, nos encantam em tudo que fazem, e as lembranças positivas é as que devem ser de fato recordadas, cada momento deve ser vivenciado da forma mais intensa possível. (Cida Santos)
EM QUE SUA PASSAGEM PELA UNIVERSIDADE VAI CONTRIBUIR PARA MUDAR SEU DESENHO?
Eu tenho pretensões de desenvolver o desenho digital. Não estou praticando essa técnica ainda porque falta recurso para comprar equipamentos. Mas o desenho digital é magnífico. A técnica digital é um meio mais prático de se desenhar porque economicamente é mais barato, querendo ou não, você não precisa gastar dinheiro com tintas, com papel, como pincéis… É um jeito prático de se trabalhar, porque você pode levar o desenho para onde quiser. Você tem uma mesa digitalizadora ali e um Notebook que você leva para o lugar que quiser. Então é mais fácil, pois você pode se deslocar com mais facilidade. Eu acho magnífico [o desenho digital], apesar de gostar muito do modo manual, eu sou muito fã do tradicional, mas é minha pretensão desenvolver a técnica digital, até porque as empresas requisitam mais isso, porque trabalhar assim é muito mais rápido e, querendo ou não, há maior segurança, na medida em que, quando um desenho está pronto, pode-se mandá-lo por e-mail. Mas hoje a gente sabe que há várias ferramentas tecnológicas que ajudam muito o profissional do desenho. Há vários desenhos que são iniciados manualmente, e depois são passados para o computador através de um software para que os mesmos passem por modificações e venham a ser pintados. Essa é uma visão de uma iniciante, então em alguns pontos posso estar equivocada, porém vejo a praticidade como um ponto forte do desenho digital. A tecnologia está aí para nos ajudar e está se desenvolvendo cada dia mais. Eu sigo vários grupos de pessoas que fazem desenhos digitais, e realmente é algo magnífico, são trabalhos incríveis, e em nosso país tem muita gente boa nessa área.
QUAIS SÃO SEUS PLANOS FUTUROS?
É como eu sempre falo, eu não tenho planos para fazer isso ou aquilo. Eu tenho um esboço do que eu quero para correr atrás. Meus planos mesmo é continuar meus estudos na universidade, conseguir um trabalho - até porque só estudar e não aplicar o que se aprende é complicado. Então, eu estou sentindo mesmo a necessidade de estar trabalhando num programa de estágio de meio período, que seja compatível com meus estudos, e que me permita desenvolver, aplicar o que estou aprendendo e evoluir cada vez mais. Assim que sair da universidade eu pretendo dar continuidade aos meus estudos, possivelmente com um mestrado. Minha intenção é fazer história, porque também é uma área pela qual sou muito apaixonada. Mas acho que primeiro vou focar, me aprofundar mais na minha área. Aqui em Sergipe, apesar de o mercado está crescendo, eu acho que vou ter que sair do nosso estado para estudar mesmo a fundo, procurar melhorar, evoluir, fazer outros cursos. Outra paixão que eu tenho, que surgiu dos desenhos, e que pretende desenvolver também é a costura. Eu costuro algumas coisas, parei por um tempo por causa da universidade, mas aos poucos estou tentando retomar porque é algo que eu gosto, acho muito interessante. Em relação à costura, eu gostaria de lembrar aqui da professora Neide, que é uma daquelas pessoas que, apesar do pouco tempo de convivência, se tornou muito importante para mim. Além de ótima profissional e ter me ensinando com muito amor algo que hoje faz parte das minhas paixões (costura), é uma pessoa incrível, sempre se preocupando com seus alunos. Ela percebeu minha paixão pelo desenho, e na época buscou me ajudar como podia, aliás, ela e outros dois que também trabalham no Senac. Tenho muito carinho por eles, e especialmente por ela, por esse carinho e preocupação materna que tem comigo. Mas meus planos para o futuro são basicamente esses: estudar, conseguir um emprego que garanta minha manutenção e que me garante amanhã ir para outro estado, onde eu possa aperfeiçoar meu trabalho. A Europa é be interessante, os profissionais de lá são… nossa! No Brasil os profissionais saem daqui, muitos alunos saem daqui da UFS e vão para São Paulo ou para o sul mesmo, e eles são bem requisitados porque são profissionais que de fato desenvolvem um bom trabalho. Então, eu pretendo... né? Eu quero e vou correr atrás, para com fé em Deus conseguir.
CIDA, A UNIVERSIDADE TE DEU UM OLHAR MAIS CRÍTICO SOBRE SEU DESENHO, OU NÃO?
Sim, a universidade me deu um olhar mais crítico, me abriu os olhos para que eu procurasse evoluir em muitos pontos fracos, como a cor. Uma das minhas maiores dificuldades é a utilização da cor, por ela ser complexa. Você representar sentimentos… enfim, qualquer coisa através da cor necessita de um olhar aguçado, precisa de um olhar mais treinado - eu diria assim. Então, na universidade tem uma questão crítica tanto na abordagem, bem como nas técnicas. Atualmente, estou um pouco parada, só estou anotando as ideias, como tem feito meus amigos. De fato, na universidade eu passei por um aperfeiçoamento. Na verdade, minha visão se ampliou mais nessa questão da técnica, até porque tem uma matéria que a gente fez, que é história da arte, e que é uma matéria incrível! - pois me fez conhecer novos artistas, ver novas técnicas, os períodos artísticos… é... tanto que eu falo para o meu namorado que preciso fazer essa matéria novamente no final [do curso], porque ela vai me ajudar muito. E a professora ensina com um amor incrível - ela é incrível, na verdade. Então, eu pretendo fazer a matéria novamente porque ela me ajudou muito a entender, a conhecer e a buscar novas técnicas. É tanto que atualmente eu estou querendo buscar novas técnicas de pintura com tintas, apesar de ser apaixonada pelo lápis de cor.m
COMO VOCÊ TRABALHA AS CORES EM SEUS DESENHOS?

QUAL É A SIMBOLOGIA DAS BORBOLETAS?

SEUS DESENHOS RETRATAM MUITO AS PESSOAS DE PELE ESCURA, NÃO É?
Sim, porque inicialmente eu desenhava e pintava muito as mulheres mais brancas; nunca fui de desenhar as mulheres negras. Eu parei para pensar assim: “poxa, quero me ver mais!” Eu acho que me deixei influenciar pelas coisas que eu via dos negros nos desenhos. Depois eu olhei assim e disse: “poxa, eu posso fazer isso, eu posso contribuir para que a gente se insira mais nos meios de representações”. Não só naquelas representações que mostram o negro acorrentado, como uma forma de manifestação, mas também mostrar o negro como um ser humano, como qualquer outro que possui beleza, que possui sonhos, que pode sim estar sendo representado em uma pintura que mostre a relação do homem com a natureza - sem necessariamente estar falando sobre a cor dele. Então, mostrar a pessoa... Ali não é preto nem branco; é uma pessoa. Eu quero que as pessoas saibam que não importa, que o negro pode ser representado da mesma forma que um branco. Meus irmãos mesmo, eu sinto que eles ficam bastante incomodados quando estão assistindo comerciais e percebem que não tem um negro ali. A gente só é representado mais no dia da Consciência Negra, em momentos específicos, em situações em que são abordados temas específicos. Parece que a gente… se for num comercial que fale sobre beleza, a gente deixa feio - então não podem [nos] mostrar. Eu gosto de representar o negro, eu gosto dessa coisa de cabelo cacheado. Eu sempre alisei os cabelos - não me arrependo. Eu gosto de mudar muito, gosto dessa coisa de mudança, porque eu vejo muitas meninas, e até crianças que desde nova não se gostam, sabe? Eu nunca sofri preconceito explícito, nunca chegaram a me bater pelo fato de eu ser negra, mas a gente percebe olhares diferentes em alguns ambientes. Mas eu sei que têm pessoas que sofrem coisas mais pesadas com relação a isso. Então, eu gosto mesmo… eu quero mesmo representar o negro como uma pessoa normal, destacar a questão da beleza, a questão do refletir sobre a vida, de você olhar além dos muros, e de buscar evoluir como ser humano. Atualmente eu estou gostando de alguns desafios que estão sendo passados para mim, porque, como eu gosto mesmo [de desenhar] sem cenário nem algo do tipo, as pessoas adoram passar desafios.

VOCÊ RECEBEU BOA ACOLHIDA AO CHEGAR NA ACADEMIA?
Lá as pessoas são bem… apesar da competição ser aparente, de as pessoas não terem uma boa relação… você percebe quando a amizade é falsa ou verdadeira, para se aproveitar. Mas é assim, com relação ao meio em si eu não tenho muito a reclamar, não. Graça a Deus, essa questão de preconceito… Às vezes a gente ouve alguns comentários estranhos, mas enfim, a gente tenta relevar na medida do possível, porque eu sou uma pessoa que foge de problemas. Às vezes eu converso, quando uma pessoa faz alguma coisa… às vezes ela não faz por mal. Mas alguns tipos de comentários incomodam. Às vezes nem está na cabeça da pessoa ofender, mas, por questão cultural mesmo, as pessoas acham que podemos estar com alguns comentários… O problema é que alguns comentários incomodam um pouco, principalmente para mim, que sou uma pessoa que não gosta de problemas. Mas, na universidade eu fui bem aceita, os professores são ótimos, em especial esses que eu citei, né? Eu tenho amigos que eu sempre digo para eles que eu tive a sorte de os encontrar, porque são pessoas que, quando você está com problemas, elas estão ali para te ajudar. Elas sempre perguntam - eu passei um tempo com problemas de saúde e elas sempre queriam saber: “ah, você está bem? Tomara que você volte logo!”. Então, são pessoas… Em relação a acolhida, sempre vai existir uma ou outra pessoa que vai se sentir incomodada e vai te incomodar, mas isso é normal. Mas, no geral mesmo, fui muito bem acolhida. Essa questão de querer me encontrar é algo de mim mesmo. Eu passei por uma mudança drástica. Eu sai da casa dos meus pais - eu nunca tinha saído. As poucas vezes em que eu fiz isso foi para passar quatro dias na casa de minha madrinha. Então, eu nunca tinha saído de casa para morar fora nem em outro lugar. Como eu já falei aqui, eu passei a conviver com pessoas totalmente diferentes. Têm pessoas daqui, mas há também gente de outros estados… É incrível como você encontra com pessoas com culturas totalmente diferentes. E, por morar com meninas maravilhosas, a gente tem um convívio ótimo, e, de alguma forma a gente está crescendo, porque são pessoas diferentes, com culturas e comportamentos também diferentes. Sendo assim, eu tenho que amadurecer para essas questões, para ser tolerante… Enfim, eu acho que a dificuldade maior é com relação a mim mesma, porque eu tive problemas de autoestima, sempre tive a autoestima meio assim - meio baixa. Por isso, quando eu entrei [na universidade] isso se agravou um pouco e eu passei a ficar meio no meu canto. Eu não conseguia ter confiança na hora de falar, nem na hora de mostrar meu trabalho, muito menos na hora que as pessoas pediam para eu mostrar meus desenhos - eu ficava só enrolando. Tem gente que até hoje me cobra. Eu fico [pensando] assim: "poxa, mas eu não sou tão boa, eu preciso evoluir". Mas eu fui bem acolhida. É como eu falo, tem um ou outro que tem certos comportamentos… mas, no geral, e graças a Deus, estou conseguindo prosseguir. Tem o cansaço, mas a gente tenta…
CIDA, VOCÊ AMADURECEU MUITO DEPOIS QUE FOI PARA A UNIVERSIDADE, NÃO É?
Sim, eu creio que amadureci em algumas questões! Eu diria que foi uma mudança muito brusca, porque eu era uma pessoa muito difícil de controlar, muito impulsiva, me estressava com facilidade, às vezes eu não ouvia tanto as pessoas, sabe? Tinha muito aquela questão: quando eu tinha um problema comigo, ou dentro de casa, isso logo me desmotivava, sabe? Eu não procurava ver aquilo como uma forma de… eu não era resiliente, como as pessoas falam. Eu não tinha aquela resiliência, não sabia me adaptar às situações. Quando entrei na universidade eu passei a comparar o meu comportamento com os das pessoas, a entender que nem todo mundo é… na verdade, ninguém é culpado pelos meus problemas, então, não há necessidade de eu ser arrogante, é… não sei, até como forma de se defender... às vezes você quer se defender das coisas externas, e às vezes você se defende de maneira errada. Eu tenho muito isso de me defender me trancando… Às vezes meus amigos iam atrás e eu não conversava. Hoje eu procuro conversar, porque quando você conversa, principalmente com pessoas que estão ali para te ajudar, você acaba organizando melhor seus pensamentos. Quando você se tranca em si mesmo você pode pensar qualquer coisa, pois não tem outra opinião. É muito complicado esse negócio de você estar se ouvindo, só se ouvindo (RISOS). Eu tenho muito a evoluir, claro, pois qualquer ser humano precisa sempre evoluir, mas, sinceramente, foi uma mudança assim… na questão de pensamento mesmo, de você olhar e perceber que as pessoas são muito diferentes. Eu estava me afastando das pessoas, por achar que as pessoas são ruins e falsas… Mas depois eu me dei conta que eu também erro. Eu erro, e, se for para me afastar das pessoas por seus erros, eu também vou ter que me afastar de mim mesma. Então, eu passei a aceitar melhor os erros das pessoas. As pessoas erram! Infelizmente, tem aqueles que erram demais e não assumem, e fazem mal demais a outras pessoas. Acho que eu passei a aceitar mais essa questão do ser humano - da fragilidade. E na vida é assim mesmo, a gente só aprende errando. Mas é isso, eu ainda estou tentando melhorar na questão da autoestima, porque às vezes eu estou bem… Noutras vezes eu fico: “poxa, não sou boa nisso, não sou boa naquilo!”...
Fiz esse desenho inspirado no ser humano lindo que é minha irmã Mara. Utilizei-me de elementos que ela gosta, e de elementos que de alguma forma me remetem a ela quando os vejo. Ela é meiga, gosta de tudo que é delicado e calmo. Tem uma alma linda. Ao mesmo tempo em que é misteriosa, muito calada, difícil desvendar o que se passa em sua mente (risos). O azul está aí, pois é uma cor que tem certo ar de profundidade, e é dessa forma que a vejo, como uma pessoa profunda demais. Vejo que a música instrumental, especialmente as tocada por violino são suas preferidas. No canto superior esquerdo há alguém aprisionada, que ao ouvir o som que sai desse belo instrumento, passa a sentir-se livre. Não digo que é assim que ela se sente, mas é assim que a vejo. (Cida Santos)
COMO SUA MÃE E SEU PAI ENCARARAM O FATO DE VOCÊ NECESSITAR FICAR LONGE DE CASA PARA ESTUDAR?
Nossa!, meu pai, por mais que esteja preocupado, ele não é de demonstrar muito. A gente sabe que ele está preocupado, mas ele não é de demonstrar muito. Ele sempre foi de demonstrar confiança. Como ele tem dois filhos que são casados, e que são do seu primeiro casamento - e desse casamento com a minha mãe eu sou a mais velha -, ele sabe que eu sempre tive uma maior carga de responsabilidade, por cuidar dos menores e tudo o mais. Então, meu pai sempre disse: "Se é isso mesmo o que você quer, corra atrás, porque você só vai conseguir assim". Ele, desde muito novo também, sempre se jogou no mundo para conseguir as coisas que ele tem hoje - que é pouco, mas, comparado ao que ele tinha antes, é uma riqueza imensa. Então, ele sempre foi muito de enfrentar o mundo com muita garra, porque poxa!, as coisas que ele já enfrentou na vida... e ele ser o que ele é, um ser humano honesto… E mainha é aquela coisa ... muita preocupada. Mainha é também muito guerreira. Ela dizia: “Minha filha, como é que você vai ficar lá?!" No início foi meio difícil ela aceitar a necessidade de eu morar longe dela. Mas depois eu expliquei: ‘Não mainha, é aqui perto! Eu vou estar correndo atrás de um futuro melhor!’. De alguma forma, eu vou conseguir cumprir as coisas que prometi para eles, porque eles enfrentam muita coisa na vida para garantir nossa existência. Eu pretendo - e eu espero que consiga - dar um pouco de paz para que eles não tenham que viver apenas fazendo contas, se preocupando se vai ter dinheiro para saldar os compromissos da casa. Eu tenho muita vontade de dar uma vida melhor para eles, para mainha fazer as viagens que ela tanto sonha. Meu pai também é apaixonado por avião, e meu sonho era levar ele em museus. Eles sempre me apoiaram, mas sempre disseram que o que eu quisesse teria que correr atrás. A preocupação maior deles era para que eu não deixasse me influenciar por coisas ruins. Tem aquela preocupação, mas eles sempre estiveram e estão ao meu lado, e sempre ligam para mim. No início, eles tinham preocupação em ter que pagar para que eu fosse e voltasse da universidade em Aracaju todos os dias. Eu tinha que escolher, ou trabalhar para os deslocamentos para Aracaju… porque para você ir para a universidade todos os dias, perdendo uma hora, uma hora e meia e ainda trabalhar… você não aguenta, não tem como aproveitar, porque… Eu admiro quem trabalha e estuda, mas a gente percebe que a dificuldade é grande. Como estou começando agora, não tenho nada construído com relação a emprego nem nada assim, eu quero crescer para ajudar a meus pais. Em virtude disso, eu tive que optar em morar fora do ninho. Mas é algo assim que enriquece a gente e que me faz crescer. Eu sei que se eu continuar me esforçando, continuar estudando uma hora ou outra isso vai retornar, então eu tenho, eu procuro sempre pensar dessa forma, principalmente nos momentos mais difíceis - é aí que eu penso que um dia vou ter a devolução disso. Espero que o resultado seja bom, que eu possa ajudar meus pais. Acho que o que me move mesmo é a questão de querer ajudar meus pais. Eles são a principal motivação. Tanto que eu falo que, por eles, eu quero ir mais longe, sabe? Porque realmente eles enfrentaram muita coisa - e ainda enfrentam. Meus pais vieram de uma família muito pobre, então, o que eles têm é porque correram atrás. Eles não nasceram em berço de ouro nem nada, então eles correram e correm atrás e, de algum modo, isso contribuiu para eu ser quem eu sou, porque eles são pessoas muito honestas. Eu agradeço muito por ter pais honestos, porque a pior coisa é você ter vergonha dos seus pais. Admiro muito nas pessoas o caráter, e meus pais têm caráter e são exemplos a se seguir. Meus irmãos também, graças a Deus têm essa coisa de também retribuir para eles tudo isso.
OBRIGADO POR VOCÊ SE DISPOR A CONTAR UM POUCO DE SUA HISTÓRIA PARA MIM
Eu que agradeço por você apreciar de alguma forma meu trabalho, agradeço também pelo convite e pela oportunidade de falar e pelo carinho e toda a atenção. E dizer que continue valorizando a cultura de Lagarto, cidade tão sofrida, mas que possui talentos incríveis (não me incluindo, ainda sou muito pequena! (risos)0, e profissionais que tentam preservar o que há de bom em Sergipe como um todo. Poucas são as pessoas que a gente percebe que querem ver o crescimento alheio, e você é essa pessoa. Muito obrigada!
Agradecimento: Aparecida Souza dos Santos (Cida)
Fotos: Do arquivo pessoal de Cida
Fotos; Eduardo Bastos
Todos os desenhos e pinturas expostas nesse artigo são de autoria de Aparecida Souza dos Santos (Cida)
Agradecimento: Aparecida Souza dos Santos (Cida)
Fotos: Do arquivo pessoal de Cida
Fotos; Eduardo Bastos
Todos os desenhos e pinturas expostas nesse artigo são de autoria de Aparecida Souza dos Santos (Cida)