quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016


À PROCURA POR EXPLICAÇÕES



                                                                                                                           Eduardo Bastos



Uma enorme expectativa envolvia a família no começo daquele ano. Logo no inicio do mês de janeiro os três irmãos entrariam em férias coletivas. Depois de um ano inteiro de muita correria e dedicação aos estudos, o filho mais velho vislumbrava passar de ano, quando então estaria livre da escola, e com folga para permanecer mais tempo em casa, desfrutando do privilégio de acordar um pouco mais tarde e de ouvir músicas com tranquilidade. 

Essas férias realmente prometiam, pois os irmãos poderiam se reunir com os amigos para jogar "Oito Maluco" por horas a fio, sem aquela preocupação com o horário. Os irmãos finalmente teriam tempo - um para colocar a leitura em dia  e prosseguir com as correções ortográficas do livro que pretendia publicar; outros para assistirem os últimos lançamentos em vídeo, pegarem uma corzinha na piscina, ou viajarem a qualquer dia da semana, sem compromisso com uma volta imediata. 

Seriam férias por demais divertidas se, de uma hora para outra, fatos sobrenaturais e inexplicáveis não começassem a acontecer, desnorteando a vida dos habitantes da casa, e tirando a graça de tudo que viesse a se fazer nos meses seguintes. 

E tudo teve início numa quarta-feira do mês de janeiro. 

Faltavam poucos minutos para as seis da tarde e, enquanto as mulheres preparavam a mesa para o jantar — afora a avó, que permanecia em frente à TV vendo sua novela —, os irmãos revezavam-se no único banheiro da casa. 

Eis que, de repente, um dos irmãos que passava por uma das salas notou algo estranho e de imediato alertou a família: 

— Pessoal, chegue aqui para ver uma coisa! 

Embaixo de uma das janelas que dava para uma rua lateral havia uma cruz de sal caprichosamente esculpida no ladrilho.

             Ilustração: Letícia Paz

Intrigados ante o aparecimento súbito daquilo, cada membro da família procurava argumentos de última hora, não apenas para convencer a si mesmo, mas principalmente para confortar os mais assustados. E a explicação mais tranquilizadora para aquele momento era dada pelos mais experientes: 

— Isso deve ser coisa dos moleques, a mando desse sujeito que tem o bar aí em frente! Não dizem na cidade que a mulher desse indivíduo é macumbeira, e vive a fazer “trabalhos” e “despachos” contra as pessoas? Motivos para querer o mal de nossa família ele deve ter de sobra. Afinal, não vivemos implicando contra os bêbados que frequentam o boteco aí em frente, e que ligam os sons dos seus carros a todo volume? 

Essas palavras tranquilizaram os moradores daquele lar apenas por uma noite. Às 6h da quinta-feira, quando as primeiras pessoas acordaram — a mãe para fazer o café e ir para o trabalho, e o avô para comprar o pão — depararam-se com algumas cruzes feitas com sal grosso e espalhadas por vários cantos da casa. 

Como explicar isso, se a casa tinha permanecido toda a noite fechada? Ruana e Moicano — os dois dobermanns da casa — eram cães bastante ariscos, que acordariam o quarteirão assim que pressentissem qualquer movimento estranho ao redor da residência. 

Se o sal encontrado pela manhã já fora suficiente para espalhar aquela sensação de mal-estar entre todos, um outro episódio, verificado na noite dessa mesma quinta-feira, acabou por espalhar mais pânico, principalmente entre as duas irmãs da casa, e deixou o avô e os irmãos por demais intrigados. 

Perto das 22h, as irmãs desligavam a TV e se preparavam para deitar, enquanto os irmãos arrumavam a mesa e os baralhos para iniciarem a sessão noturna do “Oito Maluco”. De uma hora para outra, uma queda brusca de energia deixou o mundo escuro feito breu. Nesse exato momento, um grito nervoso — que podia ser ouvido à longa distância — ecoou por toda a casa, levando todos ao desespero, e à ânsia de saber a razão daquela histeria repentina. 

A irmã mais velha só conseguiu revelar o motivo do choro nervoso e de sua aflição, depois de muitos pedidos de calma. E, a muito custo, finalmente ela conseguiu falar: 

— Um homem! Eu vi um homem esquisito dependurado ali no telhado, que olhava para mim de forma insistente!

                                          Ilustração: Murilo Araújo

A partir desse episódio, todos os dias alguém se deparava com porções de sal jogadas em algum lugar da casa. O intrigante nisso tudo é que o sal surgia do nada, e era atirado nas pessoas sempre com muita força, a qualquer hora do dia ou da noite. Era como se o arremessador estivesse com raiva dos seus alvos. 

Nessas ocasiões mil dúvidas e suposições passeavam pelas mentes dos integrantes da família. Mesmo o avô e a avó, que no passado tinham vivido uma experiência semelhante — ali mesmo, naquela cidade — pareciam atarantados e bastante incomodados. Até o avô, que sempre fora uma criatura discreta e introspectiva, não conseguia disfarçar sua cisma em relação ao que se passava. 

É natural que quando fatos que mexem com a subjetividade começam a acontecer, se levante suspeitas contra tudo e contra todos, na busca por uma explicação plausível. Mas, se por ventura houvesse um autor para o que estava se passando naquela casa, esse tinha que estar entre os membros da família. Entretanto, o que levaria alguém a promover um ato inconsequente como aquele? Será que naquele meio havia algum insano com disposição para causar tantos transtornos à própria família?! 

O fato é que, no íntimo, cada integrante da família procurava uma explicação que tivesse de acordo com suas convicções. Era preciso colocar o que estava acontecendo dentro de uma lógica, sem que isso significasse um rompimento com a consciência de cada um. 

O filho mais velho, por exemplo, num passado recente tivera contato com o pensamento materialista. Por conta disso, ele sempre demonstrou sua descrença em relação a qualquer tipo de manifestação sobrenatural. Para ele - o filho mais velho - há muito havia sido descartada a chance de vir a acreditar em reencarnação ou em alma do outro mundo. Mas o intrigante é que o episódio do aparecimento do sal era uma realidade, e acontecia com uma frequência impressionante, deixando todos abobados, e sem tino para formular uma explicação convincente e definitiva para o que acontecia no interior da casa. 

E tudo acontecia como se fosse  por capricho de uma força invisível. Sempre que algum integrante da família manifestava sua descrença no que se passava - zombando e exigindo uma prova concreta -, terminava por testemunhar uma das manifestações, a qualquer hora do dia ou da noite, nos lugares mais inesperados. Sendo assim, o sal podia atingir uma pessoa de forma isolada, da mesma forma que atingia um grupo de indivíduos que estivesse dentro de casa participando de uma refeição, de um jogo de cartas ou de outra atividade. 

Numa manhã, por exemplo, a mãe foi ao quarto de seus genitores apanhar uma peça de roupa. Assim que ela fechou a porta do guarda-roupa e se dirigia para uma sala vizinha, foi surpreendida por uma rajada de sal, que a atingiu em cheio na altura das costas. Assim que a mãe se restabeleceu do susto e chamou pela filha para varrer a sujeira (tarefa que a filha andava cansada de repetir naquela última semana), ambas se deram conta que havia mais sal que o imaginado, espalhado por cada canto, inclusive em maior quantidade embaixo da cama do casal.

        Ilustração: Letícia Paz

Uma noite, o filho mais velho chegava de uma viagem a Aracaju, e encontrou a avó e dois dos irmãos sentados tranquilamente no sofá, de onde acompanhavam as últimas notícias do “Jornal Nacional”. De um momento para o outro, uma agitação anormal na sala obrigou a todos a correrem para lá, no afã de ficarem a par do que estava acontecendo. E o que acontecia ali era que uma grande quantidade de sal, que parecia ter surgido do nada, ou de algum lugar da estante, acabava de atingir em cheio os ocupantes do sofá e da poltrona ao lado, inclusive um dos irmãos, justamente o que vinha se mostrando mais cético, o que desejava que o fato se passasse logo com ele, pois só assim seria possível para o mesmo vir a se converter ao time dos crentes. 

Esse episódio — entre os vários que se sucederam ao longo de um intervalo de tempo de um mês — foi marcante por dois motivos em particular. 

Em primeiro lugar, os habitantes da casa vinham percebendo que nos últimos dias os fatos aconteciam com muito menos frequência, havendo, pois, a esperança que o pesadelo tivesse fim de um momento para o outro, como que num passe de mágica. O que aconteceu essa noite, no entanto, parecia trazer consigo a premunição de que o sal continuaria a aparecer, espalhando dúvidas e semeando o desconforto entre os membros da família. 

Em segundo lugar, porque um dos irmãos que fora atingido pelo sal essa noite simplesmente caiu numa crise nervosa incontrolável. Sem segurar as lágrimas que vertiam em profusão, ele voltou seu desabafo contra o irmão mais velho — irmão esse que insistia em manter-se cético, apesar da sucessão dos fatos —, e debulhou em cima desse um verdadeiro sermão: 

— É preciso que você acredite no que está acontecendo aqui! É preciso haver mais união dentro dessa casa! A gente tem que ter fé, voltar a ir à igreja e rezar muito. Só assim será possível pôr fim em tudo de mal que está acontecendo aqui dentro! 

O filho mais velho sentia como ninguém o que se passava. Ele tinha consciência que fatos sem explicações como aqueles só contribuíam para trazer desconforto e desgaste  emocional, principalmente para a mãe, o avô e a avó. E, para o filho mais velho, nada existia de pior que a sensação de perceber que seus entes queridos estavam a viver em desassossego dentro do próprio lar.

Àquela altura dos acontecimentos, para o filho mais velho, acreditar ou não acreditar eram sentimentos que não faziam a menor diferença. Como todos, ele vinha, não apenas testemunhando os fatos no dia-a-dia, mas muitas vezes  acabava por ser atingido diretamente por uma daquelas manifestações inexplicáveis. No íntimo, ele desejava, tão somente, é que alguém surgisse em cena com uma explicação lógica e plausível, capaz de pôr fim a sua inquietude interior. Para ele era imprescindível, por exemplo, que houvesse uma explicação convincente para o que se passou num domingo de janeiro. 

No início da tarde desse dia, a casa estava praticamente deserta. Enquanto o avô cochilava na rede do quintal, o filho mais velho escrevia um texto na máquina colocada na mesa da sala, e a mãe — com a filha mais nova deitada com a cabeça em seu colo — assistia ao programa dominical da TV numa outra sala. O choro repentino da filha mais nova obrigou a que todos corressem para a sala, para constatar algo mais do que previsível: tinha caído sal grosso no sofá, em quantidade mais que suficiente para cobrir mãe e filha com o produto, sem que, no entanto, fosse possível determinar sua origem.

        Ilustração: Letícia Paz

Fazer o quê? O fato estava tornando-se tão comum que, logo após uma manifestação dessas, as pessoas voltavam aos seus afazeres com a naturalidade que lhes era possível. Assim sendo, o filho mais velho voltou ao que fazia antes de correr às pressas à sala de TV, e mãe e filha voltaram a acompanhar as atrações televisivas. 

Mas, nessa tarde, o filho mais velho não pôde ficar debruçado sobre sua tarefa por muito tempo. Nem ao menos uma hora havia se passado depois do último acontecimento, uma fileira de sal grosso despencou do telhado, se estendendo de uma sala à outra, numa extensão de mais de dez metros. 

Nessa mesma semana o filho mais velho foi surpreendido por outra manifestação fora do comum. Dessa vez, o que causou mais estranheza foram as circunstâncias e o momento em que o fato aconteceu. 

Passava das 18h quando o filho mais velho chegou em casa. Após pegar uma revista  em seu quarto, ele dirigiu-se à mesa da sala, onde costumava ficar lendo, até ser chamado pela mãe — que a essa altura terminava de arrumar a mesa para o jantar. Absorvido com a leitura, o filho mais velho arrepiou-se dos pés à cabeça ao ser atingido por uma nuvem de sal, que caiu sobre a mesa e sobre si, trazida como que pela força de um vendaval. 

Por esses dias ainda, um dos irmãos foi despertado pela manhã de uma forma bastante incomum. Ele dormia de bruços no momento em que uma rajada de sal o atingiu nas costas, fazendo-o despertar numa hora imprópria demais para um sujeito que estava gozando férias. E, o mais estranho nesse caso, foi a constatação do irmão, de que o mosquiteiro permanecia preso na cama, da mesma forma como fora colocado na noite anterior. Estava descartado, portanto, qualquer possibilidade de alguém ter erguido o anteparo, com a finalidade de atingir, da forma que atingiu, o ocupante da cama.

Esse mesmo irmão, em um dia qualquer, acordou com disposição para dar uma mão de hidracor na cozinha, que estava com suas paredes manchadas pela mistura de fumaça e óleo de comida. O pintor até que conseguiu fazer seu trabalho até o final, mas é lógico que ele, mesmo no alto da escada, a toda hora era atingido por uma porção de sal grosso caída do telhado - sal esse que era derramado sobre o pintor como se fosse produto de uma vingança pela mudança que o mesmo fazia naquele ambiente da casa. 

É lógico que não era apenas nos momentos de trabalho que alguém era perturbado por uma das manifestações inconsequentes. Mesmo nos momentos de lazer com os amigos, tinha se tornado bastante comum suspender-se uma partida de cartas porque o ambiente em que os jogadores encontravam-se reunidos fora tomado abruptamente por um punhado de sal grosso. (Nesses momentos, simplesmente  limpava-se a mesa e voltava-se ao jogo com brincadeiras em forma de súplicas, para que aquilo não se repetisse, pelo menos durante aquela sessão de "Oito Maluco”!). 

Pior que isso. Uma tarde estava toda a galera reunida em torno da mesa para mais algumas partidas. Passava das três horas da tarde quando uma colega de trabalho da mãe chegou para fazer-lhe uma visita. As duas mulheres deixaram na sala os rapazes — os irmãos, o namorado da irmã e mais um irmão que fora criado pela tia —, e foram à cozinha, para que a visita tomasse um cafezinho enquanto as duas batiam papo. Um punhado de sal atingiu a visita na altura do rosto, antes que a mesma tivesse tempo de ingerir seu terceiro gole de café. É lógico que, sem conhecimento do que vinha acontecendo no interior daquela casa nos últimos dias, a visita quis acreditar que aquilo tinha sido obra de uma brincadeira de mau gosto do namorado da irmã.

             Ilustração: Letícia Paz

De outra feita, uma tia (a mesma que, ao ouvir os relatos, dizia ser igual a São Tomé: “só vendo para crer” ) chegou de Lagarto acompanhado do marido e das filhas para visitar os seus. Nessa tarde ela pôde certificar-se que os fatos estranhos não eram obra da imaginação dos parentes. No instante em que ela, a mãe, o marido e a irmã conversavam na cozinha, a cena do sal voltou a se repetir tal qual acontecia em presença de outras pessoas. 

Bem, nem seria preciso dizer que o fenômeno se repetiu por dezenas de vezes, sendo testemunhado por todo o pessoal da casa. Transcorridas algumas semanas desde o início daquela manifestação estranha, dois dos irmãos — um dos quais aquele que deitara um sermão no irmão mais velho, e que se deixava impressionar com facilidade — acharam por bem procurar um grupo de espíritas que se reúne dois dias por semana na cidade de Lagarto. Após ouvir o que se passava, um dos membros do grupo disse possuir uma explicação para o que se passava. Segundo ele, tempos atrás residira um jovem na casa que se envolveu num grande acidente automobilístico, e que veio a falecer antes de ter chegado seu tempo. Agora, esse jovem identificara, entre os moradores daquela casa, uma pessoa que possuía poderes paranormais, com quem ele intencionava entrar em contato para fazer-lhe um pedido. O espírita disse ainda que esse contato estava sendo difícil, pelo fato de na casa existir uma pessoa descrente. O espírita se despediu dos seus consultantes falando do seu interesse em visitar a casa, acompanhado de outros integrantes do grupo, para juntos fazerem uma corrente de orações e de pensamentos positivo. 

Mas, já que a visita dos espíritas tinha ficado apenas numa vaga promessa, e que o fenômeno continuava se repetindo, agora com uma frequência irritante, um dos irmãos foi à procura de um rezador — um desses velhinhos que diz ter orações para tudo: olhado, dor de dente, dor de cabeça, espinhela caída... etc. 

Bastante humilde, mais com a confiança de quem já solucionou os casos mais difíceis com o poder de suas rezas, o velhinho prometeu ir até a casa, assim que lhe sobrasse tempo para isso. 

O velhinho cumpriu o combinado e perto das 10h de uma quarta-feira ele chegou a casa, e foi logo pedindo e ouvindo mais detalhes sobre o que estava acontecendo ali. Assim que se deu por satisfeito com o interrogatório, ele começou a se concentrar, enquanto distribuía sobre a mesa as velas, os santinhos e outros objetos que trouxera consigo para compor seu ambiente de ritual. Mal o velhinho havia iniciado suas orações — sob os olhares curiosos dos que estavam em casa —, quando foi pego de surpresa por uma grande rajada de sal, que encheu tanto a mesa, quanto a sala onde se realizava o ritual. Ainda sob o efeito do susto, o velhinho agiu rápido, catou seus pertences em cima da mesa, e tomou a direção da porta da rua, não sem antes sintetizar para o dono da casa tudo que estava sentindo: “Meu amigo, o que está acontecendo nessa casa é mais forte do que eu e do que minhas orações.” 

      Ilustração: Letícia Paz

A repetição diária do fenômeno acima descrito e a carga de mistério nele contido, deixavam poucas saídas para a família. Podia-se simplesmente banalizar o fato, fechar os olhos ao que estava acontecendo, alimentando a esperança que de um dia para o outro tudo terminasse como começou. Havia ainda a alternativa de a família vir a trocar de casa, relegando ao esquecimento todo o pesadelo vivido no último mês. Mas, será que a simples troca de residência seria a solução? E se o que estava acontecendo não tivesse qualquer relação com a casa em si, mas sim com uma pessoa em particular? 

Essas dúvidas pairaram nas mentes dos membros da família por cerca de uma semana. E foi a mãe quem se encarregou de dar o veredicto final sobre o assunto: 

— Olha, essa casa não é nossa, e nós estamos vivendo aqui sendo constantemente atormentados, antes pelo barulho do bar aí em frente; agora também por esse problema que surgiu há pouco mais de um mês. Nós já mudamos tanto ao longo de nossas vidas, que agora não custa nada procurarmos um lugar mais sossegado, que garanta a todos nós um pouco de tranquilidade, principalmente para aqueles que trabalharam a vida inteira, e que agora têm direito ao descanso e à paz. 

Uma semana foi o tempo suficiente para se alugar uma nova casa e para se providenciar a mudança. Um fato curioso a se registrar é que, na hora de retirar os móveis, o sal caía por sobre as cabeças das pessoas com uma persistência e profusão admirável. Era como se aquela manifestação marcasse uma despedida - despedida, aliás, com ares macabro, assustador,  arrepiante, inexplicável!



Agradecimento especial à Letícia Paz e Murilo Araujo, que aceitaram o desafio de ilustrar esse meu texto.
Agradeço ainda ao amigo Kiko Monteiro que se empenhou para que esse texto recebesse ilustrações.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016


ALAN TATOO

NA PELE PARA SEMPRE


EDUARDO BASTOS



Tatuagem
Chico Buarque
  
Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem



As tatuagens são uma forma de arte corporal que atrai milhares de pessoas em todo o mundo. Curiosamente, ostentar uma tatuagem faz com que uma pessoa pareça moderna, entretanto, esta arte já existe há séculos. A forma como é feita foi modernizada, mas a essência de ornamentar o corpo com desenhos já existe há muito tempo. Os tipos de desenhos são muito variados e encontrados para todos os gostos. Além disso, quem tem talento para desenhar pode criar algo exclusivo e personalizado ou pedir que um tatuador o faça. Assim como há variação de desenhos, seus significados também podem variar bastante. O significado de uma tatuagem é algo bastante relativo, já que algumas pessoas se preocupam com o que a imagem representa, com o significado do desenho e o escolhem de acordo com o que pretendem representar, enquanto outras fazem a tatuagem apenas por sua beleza.


ALAN CLEITON



Antes do tatuador eu conheci o enxadrista. É que, há anos, os torneios de xadrez em Lagarto são sempre organizados por dois amigos: Alan Cleiton e Ademir Francisco de Oliveira. E eu sempre compareci a esses campeonatos para tirar algumas fotos e para acompanhar as partidas em absoluto silêncio. Eu aprendi os movimentos das peças, algumas coisas de tática e estratégia do xadrez, joguei muitas partidas com meus irmãos, com Ademir, seus filhos e esposa, mas nunca me atrevi a enfrentar um adversário num campeonato.   


Por umas duas vezes, e sempre nas tardes de sábados, Ademir me chamava para irmos à casa de Alan, onde os dois travavam uma peleja ferrenha ao longo de três ou quatro horas, disputando de duas a, no máximo, três partidas - pois não podíamos sair dali com o jogo empatado. 
  
Foram nessas tardes de sábados que conheci o espaço de trabalho de Alan.  Sua fama de bom tatuador sempre chegou aos meus ouvindo através dos inúmeros amigos que já se submeteram à técnica de Alan. Meus olhos também nunca se cansaram de espiar, nem admirar, a arte que esse meu amigo imprime nos corpos daqueles que, como eu, se fazem presentes em shows e eventos culturais na cidade. Nunca pensei em desenhar meu corpo - não levo jeito para isso! Sou meio antiquado para certos modismo. Sou apenas mais um apreciador, admirador discreto de quem faz uso do corpo para espalhar mensagens e comunicar um ou mais sentimentos. 


QUEM É O TATUADOR A QUEM ME REFIRO

Alan Cleiton Fagundes é um lagartense, filho de um taxista e uma costureira, que na adolescência residiu por um bom tempo no Povoado Barro Vermelho. No início da década de 1990, ele voltou a morar na cidade, e ai estudou na Escola Frei Cristóvão de Santo Hilário, no Colégio Cenecista Laudelino Freire, e no Aberlardo Romero Dantas, de onde saiu quando cursava o segundo ano, pois se viu impossibilitado de concluir os estudos, uma vez que já havia constituído família, tinha filho, e labutava ao longo do dia em dois empregos - além de tatuador, Alan é alinhador e balanceador de automóveis. 

Um dia, Alan descobriu que levava jeito para desenhar. Em meados da década de 1980, ele ainda era um pingo de gente, mas rabiscava tudo quanto é desenho animado. Antes mesmo de ir morar no interior, desenhou todo o sítio, só de seus pais descreverem como era o lugar onde a família passaria a residir. Quando Alan voltou a morar na sede do município e retornou para a escola, voltou também a desenhar - pois na escola o que ele mais fazia mesmo era desenhar, mesmo que isso atrapalhasse um pouquinho seus estudos. (Nesse período, todos os amigos de Alan lhe diziam que ele ia ser tatuador quando crescesse, pois ele gostava de riscar pessoas com a caneta. Mas Alan não queria para si a profissão de tatuador, não gostava mesmo quando diziam que ele iria ser isso, haja vista ter um pai que não o apoiaria, e nem ele próprio era capaz de absorver o prognóstico dos amigos com tranquilidade. Mas o fato é que, toda vez que os amigos lhe pediam para desenhar algo no corpo deles, ele ia lá e desenhava com a maior disposição  e desenvoltura mundo!). 

Em 2008, Alan conheceu uma menina que tinha uma mãe e um irmão que adoravam tatuagem. Através desses três amigos, Alan conheceu um tatuador de codinome Puma. Um dia do ano de 1998, Alan fui até a casa desse tatuador, para que o profissional cumprisse a promessa de o ensinar a arte. À época, um tatuador não tinha como contar com material profissional; tudo era muito caseiro. Cada tatuador tinha que fazer sua máquina. O profissional procurado impôs a condição de Alan providenciar seu próprio material para que ele o ensinasse. Alan então adquiriu o material que foi possível encontrar, e o levou para que o tatuador preparasse sua máquina. Puma  estava sem tempo naquele momento, e propôs a Alan que usasse sua própria máquina para tatuar um primo do tatuador, de nome Márcio, que estava por ali de bobeira, e que aceitou sem pestanejar a ideia de ganhar uma nova tatuagem em seu corpo sem ter que pagar por isso. Márcio sentou por ali, Alan pegou uma caneta esferográfica, molhou a pele de sua cobaia com álcool, fez o desenho do rosto do personagem do filme Cars, meteu a agulha na pele do primo do tatuador, e depois foi seguindo as dicas que o próprio Márcio lhe dava enquanto a máquina imprimia o desenho em sua pele. Depois, Alan aprimorou esse mesmo desenho com a ajuda do próprio tatuador, e ainda tratou de desenvolver seu próprio estilo de desenhar. 

Alan afirma que passou a cobrar por seu trabalho desde as primeiras tatuagens que fez, pois, quando desenhava, todo mundo gostava e naturalmente o remunerava por isso. No inicio, não tatuar em sua própria casa foi a maneira que ele encontrou para que seu pai não ficasse sabendo de sua nova atividade. Alan ficou mais de um ano trabalhando sem o pai saber, tatuando nos bares ou nas casas dos clientes, e ganhando por isso. No ano de 2000, falou com sua mãe, que é sua "advogada", para que ela falasse com seu pai - Alan não podia nem pensar em falar direto com seu genitor, já que ele não costuma aceitar as coisas com naturalidade, e Alan nunca gostou de levar broncas. O pai aceitou que o filho tatuasse em casa, mas foi categórico quando disse que não queria ver Alan riscado, cheio de tatuagens. E, até hoje, ele respeita mesmo a determinação do pai, pois nunca se tatuou, nem nos braços, muito menos no peito ou nas costas. 

Alan fala que, para ser um tatuador, o sujeito precisa gostar de desenhar, de ganhar a vida tatuando. Mas ele esclarece que desenhar na pele não é  uma coisa muito fácil de se fazer. Um indivíduo não pode pegar uma maquina e sair riscando todo mundo, achando que o que importa é simplesmente o dinheiro. O tatuador tem que valorizar seu trabalho, tem que estudar desenho. Quando se começa um desenho é preciso ter em mente o caminho a seguir. Se o tatuador cola um desenho na pele do cliente, e se, por acaso, o desenho apaga, e se o tatuador não sabe desenhar, com certeza terá um problema em mãos. Alan diz que isso é o que mais acontece por ai. Saber desenhar é, pois, requisito básico para se tatuar.  

Os materiais que o tatuador usa em sua atividade costumam mudar através dos anos. Alan disse que, no começo, a máquina que usava era caseira e a tinta também era grotesca - ainda se usava nanquim, que não é uma tinta apropriada para tatuagem, mas que não dava problema, dificilmente se via uma alergia numa pessoa. Em 2002, Alan comprou seu material, seu primeiro kit - um kit básico, que ele adquiriu nas Lojas Tatoo, e que continha uma tinta homogênea e importada. Hoje, a tinta que Alan usa é a Elektrika, um produto antialérgico e liberado pela Anvisa. Em relação a agulhas, nosso tatuador diz que a maioria das que usa é importada; outras são nacionais, mas de boa qualidade. 

A máquina que Alan usa para desenhar na pele dos seus clientes é a tradicional, composta de duas bombinas, um batedor - preso por duas molas -, e um parafuso - que tem por função dá atrito às molas, fazendo com que o batedor crie um campo magnético entre as bombinas e depois dê movimentos de cima para baixo e de baixo para cima. Ao contrário do que se pensa, a tinta não jorra de dentro da agulha; a tinta fica no corpo da agulha, como acontece com a tinta das canetas tinteiros. A máquina é composta ainda por uma biqueira, que pode ser de aço ou de plástico - Alan prefere usar o segundo tipo, uma vez que ela é descartável e proporciona maior agilidade sempre que ele necessita trocá-la, passar de uma biqueira que comporta 03 agulhas para uma outra que pega 15. 

O ato de tatuar envolve grande risco de infecção, dependendo do tatuador e do cliente. O cliente tem sempre que ter a preocupação de procurar um bom profissional, aquele que sempre usa um material correto, haja vista que uma contaminação pode se dá tanto pela agulha, quanto por um borrifador, a depender da experiência e dos cuidados adotados pelo tatuador durante a execução do seu trabalho. 

Durante muito tempo a tatuagem foi encarada de forma preconceituosa, a ponto de um sujeito tatuado ter dificuldade até mesmo para ser aceito num emprego. Alan diz que hoje esse preconceito diminuiu muito, que é grande o número de pessoas tatuadas, e que tem até mesmo lojas de moda, em cidades como o Rio de Janeiro, que só contratam funcionários se eles ou elas tiverem tatuagens ou piercings. 

Algumas pessoas tatuam a pele para mostrar que são diferentes, para se destacar. Outras o fazem com o objetivo de homenagear. O desenho sempre tem um significado especial para quem se deixa tatuar. Alan diz que a tatuagem que encerra um significado particular sempre é a melhor que tem, pois dificilmente provoca arrependimento, e diz que sempre brinca com os clientes que querem tatuagens que homenageiam namorados(as), porque a tatuagem é para sempre; o namoro, não! E, sempre que um namoro acaba, resta sempre uma dor de cabeça, tanto para o cliente quanto para o tatuador, para cobrir aquele nome. Há uma regra entre os tatuadores, que é a de explicar ao cliente o que é uma tatuagem, pois o profissional não pode simplesmente colocar uma tatuagem sem querer saber se aquilo ficará legal. Tatuar o símbolo de futebol, por exemplo, é sempre complicado, pois pode despertar a ira de torcedores adversários (a exemplo do que acontece em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo). 

Noventa e oito por cento dos clientes que procuram o studio de Alan já chegam lá com o desenho, ou com a ideia do que querem ver tatuado em suas peles. Alan diz que só influencia na escolha do cliente se o desenho se referir a seitas, nome de namorado(a), de parentes, de pessoas, de artistas ou de times de futebol. 

A tatuagem que deu mais trabalho a Alan foi a de um cliente de nome Gilvando. Ele pediu que Alan fizesse um dragão em suas costas, depois disse que queria um tigre do lado, em seguida disse que desejava umas letras japonesas e uma flor de lótos. Em outro momento, esse mesmo cliente resolveu que queria mais letras japonesas, mais flor de lótos e nomes. Alan diz que acabou levando dois anos para fechar as costas de Gilvando com tatuagens, mas que foi um dos trabalhos que mais gostou de fazer.

Alan diz que a parte do corpo mais sensível para receber tatuagem é o pé. Mas os clientes reclamam mesmo é quando os desenhos são tatuados em suas costelas. Já houve situações em que clientes pensaram mesmo em desistir logo depois de o tatuador iniciar seu trabalho, mas Alan diz que, diante de uma situação como essa, o que ele aconselha é que o cliente feche os olhos e suporte a dor, pois uma mudança de local - para a panturrilha, braço ou  qualquer outro lugar - pode trazer arrependimento. 

Uma série de motivos lavam as pessoas a desistir de fazer um tatuagem. Alan disse que já teve situações em que ele preparou material, bancada e tudo, e quando chegou com a agulha a cliente desistiu. Alguns tatuadores cobram por essa desistência em cima da hora, uma vez que grande parte do material se perde. Depois que o tatuador coloca a tinta no pote, ela tem que ser descartada, mesmo que uma gota sequer tenha sido usada. O mesmo acontece com a vaselina e a agulha que foi aberta. Durante os anos em que trabalho de tatuagem, dois clientes de Alan acabaram desistindo de concluir a pintura: um que era tatuado na  costela; outro na cintura. 

Hoje, Alan é também campeão do jogo xadrez em Lagarto. Ele diz que jogar xadrez ajuda muito em seu trabalho como tatuador. Xadrez ajuda em seu desenvolvimento mental, ajuda a tatuar, ajuda no trato com as pessoas e ajuda ainda a ele ser paciente. 

A internet é uma ferramenta fundamental, da qual Alan faz uso tanto para pesquisar, quanto para aprimorar sua técnica. Ele diz que hoje o Youtube ajuda muito no seu aprendizado. Um dos tatuadores que ele Admira é Anil Gupta. Alan diz que, graças ao Youtube, hoje ele pode ter Gupta ali na tela do seu computador trabalhando - e isso contribui para que ele  aprenda ainda mais e aprimore sua técnica. 

Alan revela que o valor de um tatuagem costuma ser definido pelo do tempo gasto ou pelos centímetros quadrados tomados pelo desenho na pele do cliente. Desde que começou, Alan trabalha por centímetro quadrado, pelo espaço tatuado; outros tatuadores trabalham por tempo. Alan diz que é possível viver da profissão. Se o tatuador for um bom profissional, é possível ter um retorno financeiro. Alan confessa que nunca trabalhou por dinheiro, mas sim por gostar de desenhar, e esclarece que visa sempre fazer o que gosta - e o que ele gosta de fazer na vida é tatuar. 

Alan sempre diz a quem mostra interesse em ingressar no ramo da tatuagem que, antes de tudo, é preciso gostar de desenhar. Os profissionais que mais se destacaram na tatuagem foram aqueles que, desde o início, mostraram inclinação para o desenho. O mercado para quem quer começar a trabalhar com tatuagem é bastante promissor, uma vez que há muito mais gente no mundo querendo tatuar do que tatuador. Para quem quer realmente começar, a dica é saber de antemão se é isso mesmo o que quer, e procurar um bom profissional, que o ensine e o capacite. Alan diz que um tatuador iniciante tem que aprender a ser sempre paciente, para não judiar a si mesmo nem ao cliente. Tem também que se policiar, falando somente o necessário para não influenciar no desenho do cliente - desenho que, afinal, marcará a pele do tatuado para sempre!

A TATUAGEM DE CADA UM


Thais Santos


Desde criança sempre fui apaixonada por modificação corporal em geral. Assistia à documentários sobre tribos, estudava sobre o assunto. Minha primeira tatuagem veio aos 24 anos, uma tríquetra, símbolo que representa a minha fé:

Originário das tradições Celtas, ele representa as três faces da Grande Mãe, a energia criadora do universo, cujas três faces são a Virgem, a Mãe e a Anciã. Muito utilizado também como símbolo de proteção:



Minha segunda tatuagem, uma Catrina:

Um esqueleto de uma mulher completamente adornada, como distintivo da alta sociedade do início do século XX e tem uma função de lembrar que as diferenças sociais não significam nada diante da morte. A origem da Catrina remonta às festas dos mortos pré-colombianas.


Minha terceira tatuagem fiz aqui na cidade de Lagarto com o tatuador Iuri Valença, uma âncora que fiz junto com uma amiga minha, como forma de simbolizar a nossa amizade:



Minha quarta tatuagem foi com o tatuador Zabdiel Neri. Meu poema favorito do meu escritor favorito: Charles Bukowski. Poema Bluebird:

Pássaro Azul

Há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
Quer foder o meu trabalho?
Quer arruinar minha venda de livros na Europa?
Há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
Depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra completamente
e nós dormimos juntos
assim com o nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?



A tatuagem mais recente que fiz é uma árvore, a mãe e o filho, que ao mesmo tempo que representa a grande mãe terra que nos dá a vida, representa a mim e a meu filho. O triângulo invertido representa o meu elemento: água. A fusão Terra x Água. A vida que se forma e transforma. 




Rodrigo Bomfim

Rodrigo Bomfim é funcionário público e diz que sua tatuagem representa algo muito significativo, tão importante que ele decidiu carrega-la numa parte do seu corpo. Ele resolveu faze-la porque queria deixar registrado algo que foi importante durante um período de sua vida. A tatuagem de Rodrigo representa sua personalidade, trás algo de muito importante para ele. Rodrigo sente que ainda há muito preconceito em relação à tatuagem, e que alguns religiosos se utilizam dos livros para fundamentarem suas opiniões. O que essas pessoas não percebem, segundo Rodrigo, é que a tatuagem, na maioria dos casos, encerra apenas um significado próprio.

Isadora Fernanda de Freitas Cunha



A jovem loira e simpática de nome Isadora Fernanda de Freitas Cunha nasceu e se criou na cidade de Itabaiana (SE), e fez seu ensino médio nessa cidade mesmo, no Colégio Opção. Atualmente Isadora é aluna do curso de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Sergipe, no Campus de Lagarto. Isadora decidiu-se por esse curso quando necessitou frequentar uma clinica por um tempo para acompanhar o tratamento de reabilitação de sua genitora. Na busca por um curso que garantisse seu ingresso na Universidade, Isadora acabou por se decidir por Terapia Ocupacional, mesmo não sabendo ao certo as exigências, o que se fazia no curso e se era isso mesmo o que ela queria fazer. Depois ela passou a gostar do curso. 

Isadora resolveu fazer sua primeira tatuagem porque desde que era criança achava bonito. Duas de suas tias têm tatuagem, assim como um dos seus tios. Sua mãe sempre dizia que nunca deixaria ela fazer, mas Isadora sempre lhe falava que quando fosse independente faria sim uma tatuagem. Um dia, há cerca de dois anos, Isadora chegou para sua mãe e disse que estava decidida a tatuar sua pele. Sua mão tentou dissuadir Isadora da ideia, mas acabou tendo que aceitar. 

A primeira tatuagem de Isadora Fernanda é a imagem de uma gaiola, uma chave largada ao lado, alguns pássaros ganhando a liberdade e a inscrição "Believe". Até se decidir por essa tatuagem, Isadora pesquisou e viu muitas fotos na rede mundial de computadores. No início ela tinha em mente umas oito opções de tatuagens, mas ai se deparou com essa imagem, achou a palavra Believe muito forte e finalmente decidiu-se por imprimir esse que é o desenho que há dois anos ela mostra no seu antebraço direito.

Em agosto de 2015, Isadora voltou a tatuar sua pele. Dessa vez o local escolhido foi a coxa da perna direita, e ali ela fez imprimir a frase "Recomeçar Faz Parte de Viver". Ela escolheu essa frase por sempre gostar, por se identificar com ela, por ela fazer parte até do seu status do watsapp. Quando Isadora pensou em fazer sua segunda tatuagem, nunca passou por sua mente que seria uma frase. Mas esse acabou sendo o desenho escolhido, e ela se decidiu por tatuá-lo em sua perna porque achava bonito tatuagens que tinha visto em outras pessoas, especificamente nesse local. 

Na sua família, os parentes maternos acharam a tatuagem de Isadora legal, não opinaram muito. Já sua avó, mãe de seu pai, quando viu sua primeira tatuagem disse que aquilo era coisa de malandro, de maconheiro e de vagabundo. Isadora falou para sua avó que tatuagem não desvia a personalidade de ninguém, e ai sua avó acabou por aceitar. Mas Isadora confessa que até hoje sua mão diz que sente vergonha quando a filha levanta o braço. A mãe de Isadora não gosta. Admite que até acha bonito tatuagem, mas apenas as que são feitas nos outros. Por ela, Isadora não teria feito nenhuma tatuagem. Ela chegou até mesmo a dizer à filha: "Eu deixo você fazer, mas saiba que não é de minha vontade!?". Toda vez que Isadora diz que vai fazer uma nova tatuagem, sua genitora começa a dizer: "Você sabe que quando for arrumar um emprego as pessoas irão olhar isso, que você tem tatuagem..." Diante dessa fala, Isadora diz que tenta convencer à mãe que não é tão simples assim, e ai ela entende. 

Isadora diz que o preconceito em relação a quem tem tatuagem ainda é algo muito forte na sociedade. Mas ele diz também que esse preconceito diminuiu muito, e acha que isso se deve ao fato de a tatuagem ter virado moda, de quase todo mundo estar querendo se tatuar. Isadora diz que as pessoas fazem tatuagem para homenagear alguém e também porque acham esteticamente bonito.

Marcos Prata

Marcos Raimundo Prata de Carvalho (Papinho) um dia decidiu fazer tatuagens em seu corpo porque sempre quis ser diferente da maioria das pessoas, nunca lhe ocorreu a ideia de envelhecer e deixar de ser moderno. Papinho sempre achou bonito tatuagem, brinco, piercing..., e, como sempre teve muitas marcas de pancadas de futebol entre as canelas – e também já se submeteu a duas cirurgias que deixaram marcas -, resolveu aproveitar o momento para fazer tatuagens que também cobrissem-nas. Hoje, Marcos se tatua por achar bonito, e lembra que o jovem de hoje tem um gosto especial por tatuagem. Ele diz que quando está de bermuda, caminhando pelas ruas, sempre nota jovens olhando para as tatuagens do seu corpo com curiosidade, achando-as bonitas.  

A tatuagem que Papinho tem na perna esquerda se chama maori e simboliza um dragão, uma cobra enrolada, e é a que as pessoas mais admiram. O desenho que ele fez recentemente do seu lado direito tem a imagem de um punhal dentro da carne com o sangue derramando, e, para Papinho, ele representa a dor do desamor. Já a tatuagem que Marcos fez em seu peito tem vários significados. É uma árvore, que na verdade representa a árvore da vida, pois, como ele se submeteu há pouco tempo a uma cirurgia do coração, pediu ao tatuador que fizesse uma coisa diferente – e ai o tatuador desenhou o sol arrodeado pelo mar, umas ondas e uma árvore com frutas da vida, simbolizando o fato de Papinho ter sobrevivido à cirurgia. Uma outra tatuagem de Marcos representa uma escorpião, e  foi feita para homenagear pessoas especiais do seu convívio que nasceram sob esse signo. Papinho diz que agora sua pretensão é fazer outras tatuagens pelo corpo para homenagear seu time do coração – o Fluminense.  

Marcos Prata costuma falar que quem faz uma tatuagem se sente rejuvenescido, pois passa a ser aceito no meio de adolescentes e de pessoas com mentes mais abertas. Ele concorda que mesmo hoje ainda há muito preconceito. Sua mãe mesmo dizia-lhe que evitasse fazer tatuagens, mas Papinho lhe retrucava, dizendo que iria fazer, que o corpo era dele! Marcos Prata diz que sua mãe acabou se acostumando com suas tatuagens, e que todo mundo se acostuma, mas faz também questão de frisar que a sociedade tem sim preconceito, que acha que tatuagem é coisa para marginais, e que há até empregadores que não aceitam tatuagens expostas em partes como braço e pescoço, e, por isso mesmo, muita gente acaba optando por se tatuar em lugares onde pode cobrir - costas e barrigas. Papinho conclui seu raciocínio dizendo que hoje a tatuagem é aceita com mais naturalidade, uma vez que seu uso se difundiu muito na nossa sociedade e se tornou comum entre artistas e astros do futebol. 




Tsunami

Isaías Sena Chagas fez sua primeira tatuagem há 12 anos porque achava bonito seus traços, a perfeição do desenho, o profissionalismo envolvido e a moldura.  Quando era criança, ele sempre achou interessante os detalhes dos desenhos impressos numa tatuagem, e, ao se tornar adulto, decidiu finalmente fazer sua primeira marca no corpo, já que a tatuagem, para ele, é algo que fica registrado por boa parte da vida de uma  pessoa. Tsunami disse ainda que uma tatuagem é feita para mostrar, para propagar algo ou um sentimento. A tatuagem reflete atitude, um gosto pessoal, e é uma forma de reproduzir a natureza. A tatuagem, para Tsunami, revela um pouco do caráter e personalidade de cada um.  

A primeira tatuagem de Tsunami foi baseada em seu apelido, que foi colocado em 1996. O codinome ganho por ele deve-se ao fato de, em 1996, a terra se vê ameaçada por um asteroide que iria cair. Os físicos tinham feito vários cálculos do impacto que esse asteroide causaria caso viesse a se chocar com o planeta terra – e que seria semelhante àquele que causou a extinção dos dinossauros. Os cálculos também apontavam que, caso viesse a cair no mar, o asteroide produziria uma mega tsunami. Face a toda essa polêmica, Chagas passou a averiguar o assunto a fundo, e a falar tanto do acontecimento medonho que estava por vir - e que também prognosticava que o meteorito poderia cair no mar, produzindo uma onda gigante, capaz de cobrir do oceano Pacífico ao Atlântico – que seus amigos colocaram-lhe o apelido de Tsunami. O apelido também se justificava pelo fato de Isaias Chagas ter um comportamento imprevisto. Às vezes ele está ali calmo e, de um momento para o outro, explode e saia levando todo mundo. 

A segunda tatuagem que Tsunami tem no corpo, no seu braço direito, é um pentagrama. Esse foi o desenho que mais provocou-lhe dor. O pentagrama é um símbolo antigo, pagão e místico, que remota à ascensão do cristianismo. Os adoradores do pentagrama eram considerados, depois da Inquisição, adoradores do demônio. Mas Tsunami esclarece que, na verdade, o pentagrama representa os quatro elementos principais da natureza: água, terra, fogo e ar. As pessoas que não tinham conhecimentos cristãos adoravam os elementos da natureza que regiam a espécie, a matéria humana.  Quatro pontas da estrela do pentagrama simbolizam quatro elementos da natureza, enquanto a quinta representa o espírito. O pensamento místico reza que o pentagrama foi adorado por inúmeras civilizações. Assim que a Igreja tomou forma e assumiu o comando da fé, passou a simplesmente eliminar, a queimar em fogueiras, as pessoas que adoravam símbolos como o pentagrama. A própria Igreja costumava inverter o pentagrama e queimar seus adoradores junto com os próprios símbolos. O pentagrama é, pois, o símbolo pagão mais considerado (o pentagrama é o símbolo da maçonaria, e ainda hoje é comum encontrar a estrela de cinco pontas em diversas variedades de lojas do comércio local, assim como em presépios e ornamentações do natal). 

A terceira tatuagem que Tsunami fez desenhar em seu corpo é um crucifixo, com Cristo pendurado na cruz de cabeça para baixo, e o número quinze em romano. Para explicar o porquê desse desenho, Tsunami diz que há cerca de 4000 anos, muito antes de Cristo, os egípcios usavam vários símbolos naturais dentro das pirâmides, como forma de adorarem, de canalizarem regentes naturais, energias cósmicas e telúricas. Dentre os símbolos adotados pelos egípcios, havia um amuleto que tinha uma forma muito semelhante à cruz - e foi exatamente esse símbolo que a Igreja adotou, pós século XV, baseada nas antigas crenças. A cruz simboliza a união dos opostos e possui duas direções: vertical e horizontal. Ela representa vida e morte; luz e trevas; bem e mal. Ela é a união dos opostos. Cristo foi, pois, crucificado no símbolo de vida e morte. Depois da morte de Cristo na cruz, a Igreja adotou o conceito de que o símbolo cristão é a verdadeira cruz.

No quarto desenho que fez em seu corpo, Tsunami tatuou nas costa o nome satanás. Tsunami disse que não tatuou uma imagem porque, fazer isso, seria reproduzir uma criação mitológica, uma invenção de um ser que ninguém nunca viu. Ele diz que a imagem do diabo com chifre e capa foi o ser humano que criou, uma forma física de uma coisa terrível. Isaías explica que o nome Satanás vem do hebraico. Sat significa senhor; anás significa águas. Satanás portanto seria o Senhor das Águas ou o senhor dos elementos que cria a vida.  



A quinta tatuagem se encontra no peito de Tsunami, e é a Cruz de Caravaca apoiada por um oito. O oito, na forma que se encontra traçado no desenho, representa alquimia. Os primeiros químicos, através da natureza, conseguiam transmutar elementos e fazer acontecer coisas difíceis até mesmo para os tempos atuais. Eles praticavam a química oculta, usado o oito como uma representação da infinidade dos elementos compostos pela natureza. Sempre que tais químicos desejavam garantir maior longevidade para eles, tratavam de alcançar isso usando elementos oferecidos pela natureza.


Fotos: Alan Cleiton/Eduardo Bastos

Agradecimentos: Alan Cleiton, Rodrigo Bomfim, Marcos Raimundo Prata de Carvalho (Papinho), Isaías Sena Chagas (Tsunami).

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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

LETÍCIA PAZ


VOZ, ALEGRIA E FELICIDADE NUMA SÓ INTÉRPRETE


                                                                                        Eduardo Bastos



                                                         
Conhecia minha personagem de hoje quando fui comprar roupas naquela loja tradicional da cidade, de propriedade de uma grande amiga de família. Como sempre, fui recebido com todo carinho que se pode dispensar a um cliente, e a dona me indicou uma atendente nova, que me tratou como se eu fosse um comprador disposto a levar metade da loja para casa. 

Separei roupas em quantidade superior à que pretendia levar, e me dirigi ao provador com um dos braços pendendo. Fechei a cortina e, enquanto me entregava à torturante tarefa de provar uma roupa após a outra, uma canção suave, entoada por uma voz afinadíssima, invadiu a cabine. Passei a me deliciar com aquela cantoria de bom gosto, e fiquei a me perguntar de quem poderia ser aquela voz. Seria possível aquela melodia estar sendo entoada pela garota que me atendera? 

Deixei a cabine ainda em dúvida, mas por ali só se encontrava a menina mesmo, me esperando com um sorriso largo nos lábios. Ao invés de confirmar as roupas que levaria, perguntei-lhe se gostava de música. A menina disse que sim, e também que cantava. Confessei-lhe que não tinha voz para cantar mas que adorava música. Ela prosseguiu dizendo que era fã de bandas como Pink Floyd, Ramones, AC/DC, Metálica, Rolling Stones, Nirvana, The Doors, The Beatles... Retomei a palavra para lhe dizer que me criei ouvindo tudo isso e que possuía em arquivos a discografia quase completa dos Beatles e de Luiz Gonzaga - porque o Gonzagão foi o maior e o melhor, o que influenciou todos os grandes compositores e cantores do nosso país. Falei-lhe ainda de minha paixão pela MPB, pela Bossa Nova e pelo Rock Nacional - e descobri que essa era uma paixão compartilhada na mesma medida pela garota. Encerramos nosso papo combinando que seríamos amigos no mundo digital, e eu voltei de novo a falar de música - porque eu não podia me despedir de Letícia sem dizer que era fã incondicional da Legião Urbana e de Cazuza. 

Letícia tem paixão pela música
Letícia Paz é uma menina-mulher de 19 anos de idade, que desde muito cedo se encontrou com a música. Aos oito ou dez anos ela começou a cantar, enquanto balançava o irmão mais novo na rede. Aos 11 passou a cantar em público, no coral da igreja, permanecendo ali até pouco depois de completar 17 anos. Foi assim que essa lagartense tomou paixão pela música e desde muito nova começou a explorar a voz, interpretando cantoras que seu pai tinha por influencia e gostava muito, como Elis Regina, Zélia Duncan e Cassia Eller. Outra influencia importante em relação à composição e expressão foi o cantor Zé Ramalho. 

Letícia nasceu na cidade de Lagarto e foi criada no povoado Brasília, de onde saiu apenas recentemente para fixar residência na sede do município. O ensino médio completo ela fez no Colégio Silvio Romero. A mãe de Letícia, a quem ela deu o apelido carinhoso de "rainha", chama-se Rute Santos Dias e seu pai, que reside atualmente na cidade de Aracaju, responde pelo nome de Luiz Fernando da Paz. 
Menina-mulher decidida

Recentemente, li em algum lugar uma amiga chamando Letícia de "a cantora da voz de veludo". Mas ela descobriu mesmo que podia cantar num coralzinho da escola, do qual, a princípio, nem ia participar. Mas acontece que, como na escola Letícia era muito bagunceirinha, quando suas colegas começaram a cantar ela passou a imitá-las - só que as imitava com uma voz que imprimia ainda mais harmonia à uma rica melodia do cancioneiro popular: "Se essa rua/Se essa rua fosse minha/Eu mandava/Eu mandava ladrilhar...". Ai a professora notou o talento dessa garota e a colocou para fazer o solo do coral - e logo depois Letícia passou a cantar na Igreja. 

Ainda hoje, Letícia confessa ser muito fã de Elis Regina, do jeito especial que ela tinha de interpretar. Ela gosta especialmente de MPB, da Bossa Nova, do Pop Rock, e diz ser fã incondicional de Rita Lee. Outro ícone em sua vida é Duda Brack, um novo nome que acaba de surgir no cenário musical, uma cantora genial, com a qual Letícia se identificou desde o primeiro momento. 

A canção preferida de Letícia é a que afaga seu coração
Muito nervosismo e muita emoção foram sentimentos que dominaram Letícia quando ela se apresentou pela primeira vez em público. Porque ela era uma pessoa extremamente tímida, a ponto de, quando cantou pela primeira vez na Igreja Assembleia de Deus do seu povoado, mal conseguiu olhar para as pessoas. Se escondeu do público com o microfone no rosto, tremendo de medo. Mas esse também foi um momento marcante na vida de Letícia, pois ali ela percebeu no olhar do público reciprocidade na emoção; tudo que ela passava lhe era retribuído na mesma intensidade. Nessa época, o repertório de Letícia era composto por músicas de cantores como Gerson Rufino e Cassiane. Depois ela descobriu a voz grave de Fernanda Brum, e passou a cantar músicas de adoração, que se aproximavam do pop rock, com melodias mais elaboradas.

Deixar a igreja aos 17 anos foi uma decisão pessoal de Letícia, por se sentir um pouco presa e sufocada. E, quando isso aconteceu, seus "irmãos" reagiram com tristeza. Letícia confessa ter assimilado coisas positivas enquanto frequentou a igreja - coisas que acabaram contribuindo na formação de sua personalidade e caráter. Hoje, sempre que Letícia retorna à igreja na condição de visitante, todos a recebem com abraços e carinhos. A princípio, nem o pai nem a mãe queriam aceitar seu afastamento da igreja, e chegaram até mesmo a forçar a filha a voltar a frequentar os cultos. Mas, nesse momento, Letícia já completara 18 anos e havia decidido por si mesma que deveria, finalmente, fazer algo por sua vida que fosse da vontade própria. Hoje a mãe aceita com naturalidade a decisão da filha, e Letícia diz ter uma relação muito boa com Deus, sem, necessariamente, precisar fazer parte de uma igreja.

Assim que decidiu cantar na noite Letícia passou a viver experiências marcantes, já que costuma se apresentar em lugares diferentes, para públicos distintos. Ela diz que o grande desafio se deve ao fato de não poder saber antecipadamente qual será a reação do público. Recentemente, Letícia cantou num barzinho aqui de Lagarto que estava meio vazio, mas as pessoas que marcavam presença ali reagiram com tanta reciprocidade, as canções soaram tão bem, havia tanta energia no ar que tudo valeu à pena. Mas há lugares que ela diz ser difícil cantar, pois, enquanto se apresenta, as pessoas parecem nem notar sua presença - apenas conversam e se distraem; nunca lembram dos aplausos. 

Quando canta na noite, o reportório de Letícia é formado metade por canções de gosto pessoal, metade por músicas que as pessoas gostam de cantar nas apresentações. As músicas são selecionadas, também, considerando-se o ambiente - há músicas específicas para o Sarau da Caixa D'Água, e outras para barzinhos, porque ela gosta de transmitir sensações para seu público de acordo com o lugar. Letícia diz que a música que mais gosta de interpretar é Inverno, de Adriana Calcanhoto, porque é a canção que afaga seu coração nos dias em que ela está triste, e também naqueles em que ela está feliz e em paz. A música que Letícia não suporta mais cantar é Como eu Quero, do Kid Abelha, porque em todo canto que ela chega alguém lhe pede para cantar essa canção. Ela confessa que até gosta do Kid Abelha, mas acha que essa melodia não fica legal na sua voz, já que é difícil encontrar o tom exato. 

Letícia já chegou a ficar constrangida com criticas da plateia, mas ela aprendeu que elas também são produtivas. Quando estava começado a cantar em barzinho, Letícia diz ter recebido várias críticas - e as recebe até hoje, porque é uma cantora que permanece e permanecerá todo tempo se aperfeiçoando. Alguns amigos já chagaram a falar pelo fato de ela sair do tom, mas Letícia lembra que ainda não sabe tocar nenhum instrumento e que aos poucos vem buscando dominar um pouco a parte rítmica das canções. 

Hoje o que ela mais deseja é que a música possa lhe proporcionar, além de alegria, bem estar e frutos importantes para sua vida futura. Letícia diz que não dá para viver só de música, porque o músico é muito desvalorizado, principalmente no interior, onde ele não tem oportunidade de mostrar e ter seu trabalho reconhecido.  Letícia diz que o artista faz arte porque ama a arte. 

Acompanhada por Camilo ao violão
Nas apresentações que costuma fazer em espaços públicos e bares, Letícia sempre se faz acompanhar ao violão por Camilo Santana. Ela o define como seu parceiro de guerra, um cara que a compreende, que tem paciência, que a houve e que sempre tem a opinião mais sensata. Camilo, na opinião de Letícia, é um músico produtivo e, quando os dois se reúnem para ensaiar, sempre acaba saindo algo produtivo desse encontro. Letícia diz que, apesar de Camilo ser um sujeito muito novo, ele é muito bom, bastante talentoso e que conhece de música feito gente grande. 

O Sarau é seu espaço predileto 
Na opinião de Letícia, o Sarau da Caixa D'água é um espaço para pessoas como ela, para artistas relativamente sem projeções, mas que têm obras grandes e que podem usar aquele palco como espaço privilegiado para mostrar o que fazem de melhor. Quando se apresenta no Sarau Letícia mostra quem realmente é. Ali ela se sente livre para passear no palco e mostrar sua arte. A participação de Letícia no Sarau é tudo que ela gosta de fazer no final do mês. 

Letícia tem em Afonso um grande incentivador
Um dos idealizadores do Sarau da Caixa D'água, e grande incentivador de Letícia, é o letrista, músico, poeta e cantor Afonso Augusto. Letícia Paz revelou que Afonso Augusto lhe remete a inúmeras coisas boas. Ela conheceu Afonso quando ainda tinha 17 anos, no dia em que ela foi cantar pela primeira vez numa banda chamada Anônimos, que era uma grupo de rock aqui de Lagarto, e que estava se apresentando  no circuito do IFS. Nesse dia Afonso fez uma participação, interpretando uma canção do Nirvana, e Letícia ficou encantada. Logo depois, Letícia e Afonso começaram a participar de grupos de amigos comuns, e ai os dois foram se conhecendo e criando um elo mais forte, até cantarem juntos pela primeira vez num bar da cidade, que já fechou e que se chamava Plaza. Na ocasião, Letícia pediu e cantou junto com Afonso uma música de autoria dele, que tem por título Amada Meretriz. Ali a amizade se consolidou e os dois seguiram juntos pelos caminhos da música. 

Fora de Lagarto, Letícia chegou a cantar em Canindé do São Francisco, fazendo participações em apresentações de bandas local, e tem recebido propostas para cantar em cidades circunvizinhas. Nossa intérprete pretende sim ter um repertório próprio, e, para isso, há mais de um ano vem fazendo músicas com letras que refletem coisas íntimas, e as pretende gravar assim que perceber que as melodias estão com a cara de Letícia. Nesse trabalho autoral, Letícia tem composto em parceria com Camilo Santana e Danilo Duarte, da banda Estúdio Box Azulejo. O grande desejo profissional de Letícia é que o lagartense venha a valorizar mais seu trabalho e os dos artista da terra, pois eles (os artistas, que têm feito trabalhos lindos!) precisam de um olhar mais atento, e necessitam, mais que tudo, de oportunidade, do carinho e do aplauso do público local. 

Letícia rodopiando para "seu" Carcará
Em sua origem latina, o nome Letícia significa alegria, prazer e felicidade. A alegria em Letícia se manifesta quando ela toma do microfone para caetanear: "...Tava por acaso, ali não era nada/Bunda de mulata, muque de peão/Tava em Madureira, tava na bahia/No Beaubourg no Bronx, no Brás e eu e eu e eu e eu/A me perguntar: Eu sou neguinha?". O prazer emana de Letícia sempre que ela nos brinda com uma interpretação toda sua de uma canção da "ovelha negra" Rita Lee: "... Amor é cristão/Sexo é pagão/Amor é latifúndio/Sexo é invasão/Amor é divino/Sexo é animal/Amor é bossa nova/Sexo é carnaval...". Já a felicidade... ah, a felicidade!... brota quando Letícia surpreende a todos com seus rodopios no palco para apresentar seu pássaro mais valente: "Carcará/Lá no sertão/É um bicho que avoa que nem avião/É um pássaro malvado/Tem o bico volteado que nem gavião/Carcará/Quando vê roça queimada/Sai voando, cantando/Carcará..."


Fotos: Eduardo Bastos/Afonso Augusto