quarta-feira, 13 de janeiro de 2016


ALAN TATOO

NA PELE PARA SEMPRE


EDUARDO BASTOS



Tatuagem
Chico Buarque
  
Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem



As tatuagens são uma forma de arte corporal que atrai milhares de pessoas em todo o mundo. Curiosamente, ostentar uma tatuagem faz com que uma pessoa pareça moderna, entretanto, esta arte já existe há séculos. A forma como é feita foi modernizada, mas a essência de ornamentar o corpo com desenhos já existe há muito tempo. Os tipos de desenhos são muito variados e encontrados para todos os gostos. Além disso, quem tem talento para desenhar pode criar algo exclusivo e personalizado ou pedir que um tatuador o faça. Assim como há variação de desenhos, seus significados também podem variar bastante. O significado de uma tatuagem é algo bastante relativo, já que algumas pessoas se preocupam com o que a imagem representa, com o significado do desenho e o escolhem de acordo com o que pretendem representar, enquanto outras fazem a tatuagem apenas por sua beleza.


ALAN CLEITON



Antes do tatuador eu conheci o enxadrista. É que, há anos, os torneios de xadrez em Lagarto são sempre organizados por dois amigos: Alan Cleiton e Ademir Francisco de Oliveira. E eu sempre compareci a esses campeonatos para tirar algumas fotos e para acompanhar as partidas em absoluto silêncio. Eu aprendi os movimentos das peças, algumas coisas de tática e estratégia do xadrez, joguei muitas partidas com meus irmãos, com Ademir, seus filhos e esposa, mas nunca me atrevi a enfrentar um adversário num campeonato.   


Por umas duas vezes, e sempre nas tardes de sábados, Ademir me chamava para irmos à casa de Alan, onde os dois travavam uma peleja ferrenha ao longo de três ou quatro horas, disputando de duas a, no máximo, três partidas - pois não podíamos sair dali com o jogo empatado. 
  
Foram nessas tardes de sábados que conheci o espaço de trabalho de Alan.  Sua fama de bom tatuador sempre chegou aos meus ouvindo através dos inúmeros amigos que já se submeteram à técnica de Alan. Meus olhos também nunca se cansaram de espiar, nem admirar, a arte que esse meu amigo imprime nos corpos daqueles que, como eu, se fazem presentes em shows e eventos culturais na cidade. Nunca pensei em desenhar meu corpo - não levo jeito para isso! Sou meio antiquado para certos modismo. Sou apenas mais um apreciador, admirador discreto de quem faz uso do corpo para espalhar mensagens e comunicar um ou mais sentimentos. 


QUEM É O TATUADOR A QUEM ME REFIRO

Alan Cleiton Fagundes é um lagartense, filho de um taxista e uma costureira, que na adolescência residiu por um bom tempo no Povoado Barro Vermelho. No início da década de 1990, ele voltou a morar na cidade, e ai estudou na Escola Frei Cristóvão de Santo Hilário, no Colégio Cenecista Laudelino Freire, e no Aberlardo Romero Dantas, de onde saiu quando cursava o segundo ano, pois se viu impossibilitado de concluir os estudos, uma vez que já havia constituído família, tinha filho, e labutava ao longo do dia em dois empregos - além de tatuador, Alan é alinhador e balanceador de automóveis. 

Um dia, Alan descobriu que levava jeito para desenhar. Em meados da década de 1980, ele ainda era um pingo de gente, mas rabiscava tudo quanto é desenho animado. Antes mesmo de ir morar no interior, desenhou todo o sítio, só de seus pais descreverem como era o lugar onde a família passaria a residir. Quando Alan voltou a morar na sede do município e retornou para a escola, voltou também a desenhar - pois na escola o que ele mais fazia mesmo era desenhar, mesmo que isso atrapalhasse um pouquinho seus estudos. (Nesse período, todos os amigos de Alan lhe diziam que ele ia ser tatuador quando crescesse, pois ele gostava de riscar pessoas com a caneta. Mas Alan não queria para si a profissão de tatuador, não gostava mesmo quando diziam que ele iria ser isso, haja vista ter um pai que não o apoiaria, e nem ele próprio era capaz de absorver o prognóstico dos amigos com tranquilidade. Mas o fato é que, toda vez que os amigos lhe pediam para desenhar algo no corpo deles, ele ia lá e desenhava com a maior disposição  e desenvoltura mundo!). 

Em 2008, Alan conheceu uma menina que tinha uma mãe e um irmão que adoravam tatuagem. Através desses três amigos, Alan conheceu um tatuador de codinome Puma. Um dia do ano de 1998, Alan fui até a casa desse tatuador, para que o profissional cumprisse a promessa de o ensinar a arte. À época, um tatuador não tinha como contar com material profissional; tudo era muito caseiro. Cada tatuador tinha que fazer sua máquina. O profissional procurado impôs a condição de Alan providenciar seu próprio material para que ele o ensinasse. Alan então adquiriu o material que foi possível encontrar, e o levou para que o tatuador preparasse sua máquina. Puma  estava sem tempo naquele momento, e propôs a Alan que usasse sua própria máquina para tatuar um primo do tatuador, de nome Márcio, que estava por ali de bobeira, e que aceitou sem pestanejar a ideia de ganhar uma nova tatuagem em seu corpo sem ter que pagar por isso. Márcio sentou por ali, Alan pegou uma caneta esferográfica, molhou a pele de sua cobaia com álcool, fez o desenho do rosto do personagem do filme Cars, meteu a agulha na pele do primo do tatuador, e depois foi seguindo as dicas que o próprio Márcio lhe dava enquanto a máquina imprimia o desenho em sua pele. Depois, Alan aprimorou esse mesmo desenho com a ajuda do próprio tatuador, e ainda tratou de desenvolver seu próprio estilo de desenhar. 

Alan afirma que passou a cobrar por seu trabalho desde as primeiras tatuagens que fez, pois, quando desenhava, todo mundo gostava e naturalmente o remunerava por isso. No inicio, não tatuar em sua própria casa foi a maneira que ele encontrou para que seu pai não ficasse sabendo de sua nova atividade. Alan ficou mais de um ano trabalhando sem o pai saber, tatuando nos bares ou nas casas dos clientes, e ganhando por isso. No ano de 2000, falou com sua mãe, que é sua "advogada", para que ela falasse com seu pai - Alan não podia nem pensar em falar direto com seu genitor, já que ele não costuma aceitar as coisas com naturalidade, e Alan nunca gostou de levar broncas. O pai aceitou que o filho tatuasse em casa, mas foi categórico quando disse que não queria ver Alan riscado, cheio de tatuagens. E, até hoje, ele respeita mesmo a determinação do pai, pois nunca se tatuou, nem nos braços, muito menos no peito ou nas costas. 

Alan fala que, para ser um tatuador, o sujeito precisa gostar de desenhar, de ganhar a vida tatuando. Mas ele esclarece que desenhar na pele não é  uma coisa muito fácil de se fazer. Um indivíduo não pode pegar uma maquina e sair riscando todo mundo, achando que o que importa é simplesmente o dinheiro. O tatuador tem que valorizar seu trabalho, tem que estudar desenho. Quando se começa um desenho é preciso ter em mente o caminho a seguir. Se o tatuador cola um desenho na pele do cliente, e se, por acaso, o desenho apaga, e se o tatuador não sabe desenhar, com certeza terá um problema em mãos. Alan diz que isso é o que mais acontece por ai. Saber desenhar é, pois, requisito básico para se tatuar.  

Os materiais que o tatuador usa em sua atividade costumam mudar através dos anos. Alan disse que, no começo, a máquina que usava era caseira e a tinta também era grotesca - ainda se usava nanquim, que não é uma tinta apropriada para tatuagem, mas que não dava problema, dificilmente se via uma alergia numa pessoa. Em 2002, Alan comprou seu material, seu primeiro kit - um kit básico, que ele adquiriu nas Lojas Tatoo, e que continha uma tinta homogênea e importada. Hoje, a tinta que Alan usa é a Elektrika, um produto antialérgico e liberado pela Anvisa. Em relação a agulhas, nosso tatuador diz que a maioria das que usa é importada; outras são nacionais, mas de boa qualidade. 

A máquina que Alan usa para desenhar na pele dos seus clientes é a tradicional, composta de duas bombinas, um batedor - preso por duas molas -, e um parafuso - que tem por função dá atrito às molas, fazendo com que o batedor crie um campo magnético entre as bombinas e depois dê movimentos de cima para baixo e de baixo para cima. Ao contrário do que se pensa, a tinta não jorra de dentro da agulha; a tinta fica no corpo da agulha, como acontece com a tinta das canetas tinteiros. A máquina é composta ainda por uma biqueira, que pode ser de aço ou de plástico - Alan prefere usar o segundo tipo, uma vez que ela é descartável e proporciona maior agilidade sempre que ele necessita trocá-la, passar de uma biqueira que comporta 03 agulhas para uma outra que pega 15. 

O ato de tatuar envolve grande risco de infecção, dependendo do tatuador e do cliente. O cliente tem sempre que ter a preocupação de procurar um bom profissional, aquele que sempre usa um material correto, haja vista que uma contaminação pode se dá tanto pela agulha, quanto por um borrifador, a depender da experiência e dos cuidados adotados pelo tatuador durante a execução do seu trabalho. 

Durante muito tempo a tatuagem foi encarada de forma preconceituosa, a ponto de um sujeito tatuado ter dificuldade até mesmo para ser aceito num emprego. Alan diz que hoje esse preconceito diminuiu muito, que é grande o número de pessoas tatuadas, e que tem até mesmo lojas de moda, em cidades como o Rio de Janeiro, que só contratam funcionários se eles ou elas tiverem tatuagens ou piercings. 

Algumas pessoas tatuam a pele para mostrar que são diferentes, para se destacar. Outras o fazem com o objetivo de homenagear. O desenho sempre tem um significado especial para quem se deixa tatuar. Alan diz que a tatuagem que encerra um significado particular sempre é a melhor que tem, pois dificilmente provoca arrependimento, e diz que sempre brinca com os clientes que querem tatuagens que homenageiam namorados(as), porque a tatuagem é para sempre; o namoro, não! E, sempre que um namoro acaba, resta sempre uma dor de cabeça, tanto para o cliente quanto para o tatuador, para cobrir aquele nome. Há uma regra entre os tatuadores, que é a de explicar ao cliente o que é uma tatuagem, pois o profissional não pode simplesmente colocar uma tatuagem sem querer saber se aquilo ficará legal. Tatuar o símbolo de futebol, por exemplo, é sempre complicado, pois pode despertar a ira de torcedores adversários (a exemplo do que acontece em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo). 

Noventa e oito por cento dos clientes que procuram o studio de Alan já chegam lá com o desenho, ou com a ideia do que querem ver tatuado em suas peles. Alan diz que só influencia na escolha do cliente se o desenho se referir a seitas, nome de namorado(a), de parentes, de pessoas, de artistas ou de times de futebol. 

A tatuagem que deu mais trabalho a Alan foi a de um cliente de nome Gilvando. Ele pediu que Alan fizesse um dragão em suas costas, depois disse que queria um tigre do lado, em seguida disse que desejava umas letras japonesas e uma flor de lótos. Em outro momento, esse mesmo cliente resolveu que queria mais letras japonesas, mais flor de lótos e nomes. Alan diz que acabou levando dois anos para fechar as costas de Gilvando com tatuagens, mas que foi um dos trabalhos que mais gostou de fazer.

Alan diz que a parte do corpo mais sensível para receber tatuagem é o pé. Mas os clientes reclamam mesmo é quando os desenhos são tatuados em suas costelas. Já houve situações em que clientes pensaram mesmo em desistir logo depois de o tatuador iniciar seu trabalho, mas Alan diz que, diante de uma situação como essa, o que ele aconselha é que o cliente feche os olhos e suporte a dor, pois uma mudança de local - para a panturrilha, braço ou  qualquer outro lugar - pode trazer arrependimento. 

Uma série de motivos lavam as pessoas a desistir de fazer um tatuagem. Alan disse que já teve situações em que ele preparou material, bancada e tudo, e quando chegou com a agulha a cliente desistiu. Alguns tatuadores cobram por essa desistência em cima da hora, uma vez que grande parte do material se perde. Depois que o tatuador coloca a tinta no pote, ela tem que ser descartada, mesmo que uma gota sequer tenha sido usada. O mesmo acontece com a vaselina e a agulha que foi aberta. Durante os anos em que trabalho de tatuagem, dois clientes de Alan acabaram desistindo de concluir a pintura: um que era tatuado na  costela; outro na cintura. 

Hoje, Alan é também campeão do jogo xadrez em Lagarto. Ele diz que jogar xadrez ajuda muito em seu trabalho como tatuador. Xadrez ajuda em seu desenvolvimento mental, ajuda a tatuar, ajuda no trato com as pessoas e ajuda ainda a ele ser paciente. 

A internet é uma ferramenta fundamental, da qual Alan faz uso tanto para pesquisar, quanto para aprimorar sua técnica. Ele diz que hoje o Youtube ajuda muito no seu aprendizado. Um dos tatuadores que ele Admira é Anil Gupta. Alan diz que, graças ao Youtube, hoje ele pode ter Gupta ali na tela do seu computador trabalhando - e isso contribui para que ele  aprenda ainda mais e aprimore sua técnica. 

Alan revela que o valor de um tatuagem costuma ser definido pelo do tempo gasto ou pelos centímetros quadrados tomados pelo desenho na pele do cliente. Desde que começou, Alan trabalha por centímetro quadrado, pelo espaço tatuado; outros tatuadores trabalham por tempo. Alan diz que é possível viver da profissão. Se o tatuador for um bom profissional, é possível ter um retorno financeiro. Alan confessa que nunca trabalhou por dinheiro, mas sim por gostar de desenhar, e esclarece que visa sempre fazer o que gosta - e o que ele gosta de fazer na vida é tatuar. 

Alan sempre diz a quem mostra interesse em ingressar no ramo da tatuagem que, antes de tudo, é preciso gostar de desenhar. Os profissionais que mais se destacaram na tatuagem foram aqueles que, desde o início, mostraram inclinação para o desenho. O mercado para quem quer começar a trabalhar com tatuagem é bastante promissor, uma vez que há muito mais gente no mundo querendo tatuar do que tatuador. Para quem quer realmente começar, a dica é saber de antemão se é isso mesmo o que quer, e procurar um bom profissional, que o ensine e o capacite. Alan diz que um tatuador iniciante tem que aprender a ser sempre paciente, para não judiar a si mesmo nem ao cliente. Tem também que se policiar, falando somente o necessário para não influenciar no desenho do cliente - desenho que, afinal, marcará a pele do tatuado para sempre!

A TATUAGEM DE CADA UM


Thais Santos


Desde criança sempre fui apaixonada por modificação corporal em geral. Assistia à documentários sobre tribos, estudava sobre o assunto. Minha primeira tatuagem veio aos 24 anos, uma tríquetra, símbolo que representa a minha fé:

Originário das tradições Celtas, ele representa as três faces da Grande Mãe, a energia criadora do universo, cujas três faces são a Virgem, a Mãe e a Anciã. Muito utilizado também como símbolo de proteção:



Minha segunda tatuagem, uma Catrina:

Um esqueleto de uma mulher completamente adornada, como distintivo da alta sociedade do início do século XX e tem uma função de lembrar que as diferenças sociais não significam nada diante da morte. A origem da Catrina remonta às festas dos mortos pré-colombianas.


Minha terceira tatuagem fiz aqui na cidade de Lagarto com o tatuador Iuri Valença, uma âncora que fiz junto com uma amiga minha, como forma de simbolizar a nossa amizade:



Minha quarta tatuagem foi com o tatuador Zabdiel Neri. Meu poema favorito do meu escritor favorito: Charles Bukowski. Poema Bluebird:

Pássaro Azul

Há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
Quer foder o meu trabalho?
Quer arruinar minha venda de livros na Europa?
Há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
Depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra completamente
e nós dormimos juntos
assim com o nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?



A tatuagem mais recente que fiz é uma árvore, a mãe e o filho, que ao mesmo tempo que representa a grande mãe terra que nos dá a vida, representa a mim e a meu filho. O triângulo invertido representa o meu elemento: água. A fusão Terra x Água. A vida que se forma e transforma. 




Rodrigo Bomfim

Rodrigo Bomfim é funcionário público e diz que sua tatuagem representa algo muito significativo, tão importante que ele decidiu carrega-la numa parte do seu corpo. Ele resolveu faze-la porque queria deixar registrado algo que foi importante durante um período de sua vida. A tatuagem de Rodrigo representa sua personalidade, trás algo de muito importante para ele. Rodrigo sente que ainda há muito preconceito em relação à tatuagem, e que alguns religiosos se utilizam dos livros para fundamentarem suas opiniões. O que essas pessoas não percebem, segundo Rodrigo, é que a tatuagem, na maioria dos casos, encerra apenas um significado próprio.

Isadora Fernanda de Freitas Cunha



A jovem loira e simpática de nome Isadora Fernanda de Freitas Cunha nasceu e se criou na cidade de Itabaiana (SE), e fez seu ensino médio nessa cidade mesmo, no Colégio Opção. Atualmente Isadora é aluna do curso de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Sergipe, no Campus de Lagarto. Isadora decidiu-se por esse curso quando necessitou frequentar uma clinica por um tempo para acompanhar o tratamento de reabilitação de sua genitora. Na busca por um curso que garantisse seu ingresso na Universidade, Isadora acabou por se decidir por Terapia Ocupacional, mesmo não sabendo ao certo as exigências, o que se fazia no curso e se era isso mesmo o que ela queria fazer. Depois ela passou a gostar do curso. 

Isadora resolveu fazer sua primeira tatuagem porque desde que era criança achava bonito. Duas de suas tias têm tatuagem, assim como um dos seus tios. Sua mãe sempre dizia que nunca deixaria ela fazer, mas Isadora sempre lhe falava que quando fosse independente faria sim uma tatuagem. Um dia, há cerca de dois anos, Isadora chegou para sua mãe e disse que estava decidida a tatuar sua pele. Sua mão tentou dissuadir Isadora da ideia, mas acabou tendo que aceitar. 

A primeira tatuagem de Isadora Fernanda é a imagem de uma gaiola, uma chave largada ao lado, alguns pássaros ganhando a liberdade e a inscrição "Believe". Até se decidir por essa tatuagem, Isadora pesquisou e viu muitas fotos na rede mundial de computadores. No início ela tinha em mente umas oito opções de tatuagens, mas ai se deparou com essa imagem, achou a palavra Believe muito forte e finalmente decidiu-se por imprimir esse que é o desenho que há dois anos ela mostra no seu antebraço direito.

Em agosto de 2015, Isadora voltou a tatuar sua pele. Dessa vez o local escolhido foi a coxa da perna direita, e ali ela fez imprimir a frase "Recomeçar Faz Parte de Viver". Ela escolheu essa frase por sempre gostar, por se identificar com ela, por ela fazer parte até do seu status do watsapp. Quando Isadora pensou em fazer sua segunda tatuagem, nunca passou por sua mente que seria uma frase. Mas esse acabou sendo o desenho escolhido, e ela se decidiu por tatuá-lo em sua perna porque achava bonito tatuagens que tinha visto em outras pessoas, especificamente nesse local. 

Na sua família, os parentes maternos acharam a tatuagem de Isadora legal, não opinaram muito. Já sua avó, mãe de seu pai, quando viu sua primeira tatuagem disse que aquilo era coisa de malandro, de maconheiro e de vagabundo. Isadora falou para sua avó que tatuagem não desvia a personalidade de ninguém, e ai sua avó acabou por aceitar. Mas Isadora confessa que até hoje sua mão diz que sente vergonha quando a filha levanta o braço. A mãe de Isadora não gosta. Admite que até acha bonito tatuagem, mas apenas as que são feitas nos outros. Por ela, Isadora não teria feito nenhuma tatuagem. Ela chegou até mesmo a dizer à filha: "Eu deixo você fazer, mas saiba que não é de minha vontade!?". Toda vez que Isadora diz que vai fazer uma nova tatuagem, sua genitora começa a dizer: "Você sabe que quando for arrumar um emprego as pessoas irão olhar isso, que você tem tatuagem..." Diante dessa fala, Isadora diz que tenta convencer à mãe que não é tão simples assim, e ai ela entende. 

Isadora diz que o preconceito em relação a quem tem tatuagem ainda é algo muito forte na sociedade. Mas ele diz também que esse preconceito diminuiu muito, e acha que isso se deve ao fato de a tatuagem ter virado moda, de quase todo mundo estar querendo se tatuar. Isadora diz que as pessoas fazem tatuagem para homenagear alguém e também porque acham esteticamente bonito.

Marcos Prata

Marcos Raimundo Prata de Carvalho (Papinho) um dia decidiu fazer tatuagens em seu corpo porque sempre quis ser diferente da maioria das pessoas, nunca lhe ocorreu a ideia de envelhecer e deixar de ser moderno. Papinho sempre achou bonito tatuagem, brinco, piercing..., e, como sempre teve muitas marcas de pancadas de futebol entre as canelas – e também já se submeteu a duas cirurgias que deixaram marcas -, resolveu aproveitar o momento para fazer tatuagens que também cobrissem-nas. Hoje, Marcos se tatua por achar bonito, e lembra que o jovem de hoje tem um gosto especial por tatuagem. Ele diz que quando está de bermuda, caminhando pelas ruas, sempre nota jovens olhando para as tatuagens do seu corpo com curiosidade, achando-as bonitas.  

A tatuagem que Papinho tem na perna esquerda se chama maori e simboliza um dragão, uma cobra enrolada, e é a que as pessoas mais admiram. O desenho que ele fez recentemente do seu lado direito tem a imagem de um punhal dentro da carne com o sangue derramando, e, para Papinho, ele representa a dor do desamor. Já a tatuagem que Marcos fez em seu peito tem vários significados. É uma árvore, que na verdade representa a árvore da vida, pois, como ele se submeteu há pouco tempo a uma cirurgia do coração, pediu ao tatuador que fizesse uma coisa diferente – e ai o tatuador desenhou o sol arrodeado pelo mar, umas ondas e uma árvore com frutas da vida, simbolizando o fato de Papinho ter sobrevivido à cirurgia. Uma outra tatuagem de Marcos representa uma escorpião, e  foi feita para homenagear pessoas especiais do seu convívio que nasceram sob esse signo. Papinho diz que agora sua pretensão é fazer outras tatuagens pelo corpo para homenagear seu time do coração – o Fluminense.  

Marcos Prata costuma falar que quem faz uma tatuagem se sente rejuvenescido, pois passa a ser aceito no meio de adolescentes e de pessoas com mentes mais abertas. Ele concorda que mesmo hoje ainda há muito preconceito. Sua mãe mesmo dizia-lhe que evitasse fazer tatuagens, mas Papinho lhe retrucava, dizendo que iria fazer, que o corpo era dele! Marcos Prata diz que sua mãe acabou se acostumando com suas tatuagens, e que todo mundo se acostuma, mas faz também questão de frisar que a sociedade tem sim preconceito, que acha que tatuagem é coisa para marginais, e que há até empregadores que não aceitam tatuagens expostas em partes como braço e pescoço, e, por isso mesmo, muita gente acaba optando por se tatuar em lugares onde pode cobrir - costas e barrigas. Papinho conclui seu raciocínio dizendo que hoje a tatuagem é aceita com mais naturalidade, uma vez que seu uso se difundiu muito na nossa sociedade e se tornou comum entre artistas e astros do futebol. 




Tsunami

Isaías Sena Chagas fez sua primeira tatuagem há 12 anos porque achava bonito seus traços, a perfeição do desenho, o profissionalismo envolvido e a moldura.  Quando era criança, ele sempre achou interessante os detalhes dos desenhos impressos numa tatuagem, e, ao se tornar adulto, decidiu finalmente fazer sua primeira marca no corpo, já que a tatuagem, para ele, é algo que fica registrado por boa parte da vida de uma  pessoa. Tsunami disse ainda que uma tatuagem é feita para mostrar, para propagar algo ou um sentimento. A tatuagem reflete atitude, um gosto pessoal, e é uma forma de reproduzir a natureza. A tatuagem, para Tsunami, revela um pouco do caráter e personalidade de cada um.  

A primeira tatuagem de Tsunami foi baseada em seu apelido, que foi colocado em 1996. O codinome ganho por ele deve-se ao fato de, em 1996, a terra se vê ameaçada por um asteroide que iria cair. Os físicos tinham feito vários cálculos do impacto que esse asteroide causaria caso viesse a se chocar com o planeta terra – e que seria semelhante àquele que causou a extinção dos dinossauros. Os cálculos também apontavam que, caso viesse a cair no mar, o asteroide produziria uma mega tsunami. Face a toda essa polêmica, Chagas passou a averiguar o assunto a fundo, e a falar tanto do acontecimento medonho que estava por vir - e que também prognosticava que o meteorito poderia cair no mar, produzindo uma onda gigante, capaz de cobrir do oceano Pacífico ao Atlântico – que seus amigos colocaram-lhe o apelido de Tsunami. O apelido também se justificava pelo fato de Isaias Chagas ter um comportamento imprevisto. Às vezes ele está ali calmo e, de um momento para o outro, explode e saia levando todo mundo. 

A segunda tatuagem que Tsunami tem no corpo, no seu braço direito, é um pentagrama. Esse foi o desenho que mais provocou-lhe dor. O pentagrama é um símbolo antigo, pagão e místico, que remota à ascensão do cristianismo. Os adoradores do pentagrama eram considerados, depois da Inquisição, adoradores do demônio. Mas Tsunami esclarece que, na verdade, o pentagrama representa os quatro elementos principais da natureza: água, terra, fogo e ar. As pessoas que não tinham conhecimentos cristãos adoravam os elementos da natureza que regiam a espécie, a matéria humana.  Quatro pontas da estrela do pentagrama simbolizam quatro elementos da natureza, enquanto a quinta representa o espírito. O pensamento místico reza que o pentagrama foi adorado por inúmeras civilizações. Assim que a Igreja tomou forma e assumiu o comando da fé, passou a simplesmente eliminar, a queimar em fogueiras, as pessoas que adoravam símbolos como o pentagrama. A própria Igreja costumava inverter o pentagrama e queimar seus adoradores junto com os próprios símbolos. O pentagrama é, pois, o símbolo pagão mais considerado (o pentagrama é o símbolo da maçonaria, e ainda hoje é comum encontrar a estrela de cinco pontas em diversas variedades de lojas do comércio local, assim como em presépios e ornamentações do natal). 

A terceira tatuagem que Tsunami fez desenhar em seu corpo é um crucifixo, com Cristo pendurado na cruz de cabeça para baixo, e o número quinze em romano. Para explicar o porquê desse desenho, Tsunami diz que há cerca de 4000 anos, muito antes de Cristo, os egípcios usavam vários símbolos naturais dentro das pirâmides, como forma de adorarem, de canalizarem regentes naturais, energias cósmicas e telúricas. Dentre os símbolos adotados pelos egípcios, havia um amuleto que tinha uma forma muito semelhante à cruz - e foi exatamente esse símbolo que a Igreja adotou, pós século XV, baseada nas antigas crenças. A cruz simboliza a união dos opostos e possui duas direções: vertical e horizontal. Ela representa vida e morte; luz e trevas; bem e mal. Ela é a união dos opostos. Cristo foi, pois, crucificado no símbolo de vida e morte. Depois da morte de Cristo na cruz, a Igreja adotou o conceito de que o símbolo cristão é a verdadeira cruz.

No quarto desenho que fez em seu corpo, Tsunami tatuou nas costa o nome satanás. Tsunami disse que não tatuou uma imagem porque, fazer isso, seria reproduzir uma criação mitológica, uma invenção de um ser que ninguém nunca viu. Ele diz que a imagem do diabo com chifre e capa foi o ser humano que criou, uma forma física de uma coisa terrível. Isaías explica que o nome Satanás vem do hebraico. Sat significa senhor; anás significa águas. Satanás portanto seria o Senhor das Águas ou o senhor dos elementos que cria a vida.  



A quinta tatuagem se encontra no peito de Tsunami, e é a Cruz de Caravaca apoiada por um oito. O oito, na forma que se encontra traçado no desenho, representa alquimia. Os primeiros químicos, através da natureza, conseguiam transmutar elementos e fazer acontecer coisas difíceis até mesmo para os tempos atuais. Eles praticavam a química oculta, usado o oito como uma representação da infinidade dos elementos compostos pela natureza. Sempre que tais químicos desejavam garantir maior longevidade para eles, tratavam de alcançar isso usando elementos oferecidos pela natureza.


Fotos: Alan Cleiton/Eduardo Bastos

Agradecimentos: Alan Cleiton, Rodrigo Bomfim, Marcos Raimundo Prata de Carvalho (Papinho), Isaías Sena Chagas (Tsunami).

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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

LETÍCIA PAZ


VOZ, ALEGRIA E FELICIDADE NUMA SÓ INTÉRPRETE


                                                                                        Eduardo Bastos



                                                         
Conhecia minha personagem de hoje quando fui comprar roupas naquela loja tradicional da cidade, de propriedade de uma grande amiga de família. Como sempre, fui recebido com todo carinho que se pode dispensar a um cliente, e a dona me indicou uma atendente nova, que me tratou como se eu fosse um comprador disposto a levar metade da loja para casa. 

Separei roupas em quantidade superior à que pretendia levar, e me dirigi ao provador com um dos braços pendendo. Fechei a cortina e, enquanto me entregava à torturante tarefa de provar uma roupa após a outra, uma canção suave, entoada por uma voz afinadíssima, invadiu a cabine. Passei a me deliciar com aquela cantoria de bom gosto, e fiquei a me perguntar de quem poderia ser aquela voz. Seria possível aquela melodia estar sendo entoada pela garota que me atendera? 

Deixei a cabine ainda em dúvida, mas por ali só se encontrava a menina mesmo, me esperando com um sorriso largo nos lábios. Ao invés de confirmar as roupas que levaria, perguntei-lhe se gostava de música. A menina disse que sim, e também que cantava. Confessei-lhe que não tinha voz para cantar mas que adorava música. Ela prosseguiu dizendo que era fã de bandas como Pink Floyd, Ramones, AC/DC, Metálica, Rolling Stones, Nirvana, The Doors, The Beatles... Retomei a palavra para lhe dizer que me criei ouvindo tudo isso e que possuía em arquivos a discografia quase completa dos Beatles e de Luiz Gonzaga - porque o Gonzagão foi o maior e o melhor, o que influenciou todos os grandes compositores e cantores do nosso país. Falei-lhe ainda de minha paixão pela MPB, pela Bossa Nova e pelo Rock Nacional - e descobri que essa era uma paixão compartilhada na mesma medida pela garota. Encerramos nosso papo combinando que seríamos amigos no mundo digital, e eu voltei de novo a falar de música - porque eu não podia me despedir de Letícia sem dizer que era fã incondicional da Legião Urbana e de Cazuza. 

Letícia tem paixão pela música
Letícia Paz é uma menina-mulher de 19 anos de idade, que desde muito cedo se encontrou com a música. Aos oito ou dez anos ela começou a cantar, enquanto balançava o irmão mais novo na rede. Aos 11 passou a cantar em público, no coral da igreja, permanecendo ali até pouco depois de completar 17 anos. Foi assim que essa lagartense tomou paixão pela música e desde muito nova começou a explorar a voz, interpretando cantoras que seu pai tinha por influencia e gostava muito, como Elis Regina, Zélia Duncan e Cassia Eller. Outra influencia importante em relação à composição e expressão foi o cantor Zé Ramalho. 

Letícia nasceu na cidade de Lagarto e foi criada no povoado Brasília, de onde saiu apenas recentemente para fixar residência na sede do município. O ensino médio completo ela fez no Colégio Silvio Romero. A mãe de Letícia, a quem ela deu o apelido carinhoso de "rainha", chama-se Rute Santos Dias e seu pai, que reside atualmente na cidade de Aracaju, responde pelo nome de Luiz Fernando da Paz. 
Menina-mulher decidida

Recentemente, li em algum lugar uma amiga chamando Letícia de "a cantora da voz de veludo". Mas ela descobriu mesmo que podia cantar num coralzinho da escola, do qual, a princípio, nem ia participar. Mas acontece que, como na escola Letícia era muito bagunceirinha, quando suas colegas começaram a cantar ela passou a imitá-las - só que as imitava com uma voz que imprimia ainda mais harmonia à uma rica melodia do cancioneiro popular: "Se essa rua/Se essa rua fosse minha/Eu mandava/Eu mandava ladrilhar...". Ai a professora notou o talento dessa garota e a colocou para fazer o solo do coral - e logo depois Letícia passou a cantar na Igreja. 

Ainda hoje, Letícia confessa ser muito fã de Elis Regina, do jeito especial que ela tinha de interpretar. Ela gosta especialmente de MPB, da Bossa Nova, do Pop Rock, e diz ser fã incondicional de Rita Lee. Outro ícone em sua vida é Duda Brack, um novo nome que acaba de surgir no cenário musical, uma cantora genial, com a qual Letícia se identificou desde o primeiro momento. 

A canção preferida de Letícia é a que afaga seu coração
Muito nervosismo e muita emoção foram sentimentos que dominaram Letícia quando ela se apresentou pela primeira vez em público. Porque ela era uma pessoa extremamente tímida, a ponto de, quando cantou pela primeira vez na Igreja Assembleia de Deus do seu povoado, mal conseguiu olhar para as pessoas. Se escondeu do público com o microfone no rosto, tremendo de medo. Mas esse também foi um momento marcante na vida de Letícia, pois ali ela percebeu no olhar do público reciprocidade na emoção; tudo que ela passava lhe era retribuído na mesma intensidade. Nessa época, o repertório de Letícia era composto por músicas de cantores como Gerson Rufino e Cassiane. Depois ela descobriu a voz grave de Fernanda Brum, e passou a cantar músicas de adoração, que se aproximavam do pop rock, com melodias mais elaboradas.

Deixar a igreja aos 17 anos foi uma decisão pessoal de Letícia, por se sentir um pouco presa e sufocada. E, quando isso aconteceu, seus "irmãos" reagiram com tristeza. Letícia confessa ter assimilado coisas positivas enquanto frequentou a igreja - coisas que acabaram contribuindo na formação de sua personalidade e caráter. Hoje, sempre que Letícia retorna à igreja na condição de visitante, todos a recebem com abraços e carinhos. A princípio, nem o pai nem a mãe queriam aceitar seu afastamento da igreja, e chegaram até mesmo a forçar a filha a voltar a frequentar os cultos. Mas, nesse momento, Letícia já completara 18 anos e havia decidido por si mesma que deveria, finalmente, fazer algo por sua vida que fosse da vontade própria. Hoje a mãe aceita com naturalidade a decisão da filha, e Letícia diz ter uma relação muito boa com Deus, sem, necessariamente, precisar fazer parte de uma igreja.

Assim que decidiu cantar na noite Letícia passou a viver experiências marcantes, já que costuma se apresentar em lugares diferentes, para públicos distintos. Ela diz que o grande desafio se deve ao fato de não poder saber antecipadamente qual será a reação do público. Recentemente, Letícia cantou num barzinho aqui de Lagarto que estava meio vazio, mas as pessoas que marcavam presença ali reagiram com tanta reciprocidade, as canções soaram tão bem, havia tanta energia no ar que tudo valeu à pena. Mas há lugares que ela diz ser difícil cantar, pois, enquanto se apresenta, as pessoas parecem nem notar sua presença - apenas conversam e se distraem; nunca lembram dos aplausos. 

Quando canta na noite, o reportório de Letícia é formado metade por canções de gosto pessoal, metade por músicas que as pessoas gostam de cantar nas apresentações. As músicas são selecionadas, também, considerando-se o ambiente - há músicas específicas para o Sarau da Caixa D'Água, e outras para barzinhos, porque ela gosta de transmitir sensações para seu público de acordo com o lugar. Letícia diz que a música que mais gosta de interpretar é Inverno, de Adriana Calcanhoto, porque é a canção que afaga seu coração nos dias em que ela está triste, e também naqueles em que ela está feliz e em paz. A música que Letícia não suporta mais cantar é Como eu Quero, do Kid Abelha, porque em todo canto que ela chega alguém lhe pede para cantar essa canção. Ela confessa que até gosta do Kid Abelha, mas acha que essa melodia não fica legal na sua voz, já que é difícil encontrar o tom exato. 

Letícia já chegou a ficar constrangida com criticas da plateia, mas ela aprendeu que elas também são produtivas. Quando estava começado a cantar em barzinho, Letícia diz ter recebido várias críticas - e as recebe até hoje, porque é uma cantora que permanece e permanecerá todo tempo se aperfeiçoando. Alguns amigos já chagaram a falar pelo fato de ela sair do tom, mas Letícia lembra que ainda não sabe tocar nenhum instrumento e que aos poucos vem buscando dominar um pouco a parte rítmica das canções. 

Hoje o que ela mais deseja é que a música possa lhe proporcionar, além de alegria, bem estar e frutos importantes para sua vida futura. Letícia diz que não dá para viver só de música, porque o músico é muito desvalorizado, principalmente no interior, onde ele não tem oportunidade de mostrar e ter seu trabalho reconhecido.  Letícia diz que o artista faz arte porque ama a arte. 

Acompanhada por Camilo ao violão
Nas apresentações que costuma fazer em espaços públicos e bares, Letícia sempre se faz acompanhar ao violão por Camilo Santana. Ela o define como seu parceiro de guerra, um cara que a compreende, que tem paciência, que a houve e que sempre tem a opinião mais sensata. Camilo, na opinião de Letícia, é um músico produtivo e, quando os dois se reúnem para ensaiar, sempre acaba saindo algo produtivo desse encontro. Letícia diz que, apesar de Camilo ser um sujeito muito novo, ele é muito bom, bastante talentoso e que conhece de música feito gente grande. 

O Sarau é seu espaço predileto 
Na opinião de Letícia, o Sarau da Caixa D'água é um espaço para pessoas como ela, para artistas relativamente sem projeções, mas que têm obras grandes e que podem usar aquele palco como espaço privilegiado para mostrar o que fazem de melhor. Quando se apresenta no Sarau Letícia mostra quem realmente é. Ali ela se sente livre para passear no palco e mostrar sua arte. A participação de Letícia no Sarau é tudo que ela gosta de fazer no final do mês. 

Letícia tem em Afonso um grande incentivador
Um dos idealizadores do Sarau da Caixa D'água, e grande incentivador de Letícia, é o letrista, músico, poeta e cantor Afonso Augusto. Letícia Paz revelou que Afonso Augusto lhe remete a inúmeras coisas boas. Ela conheceu Afonso quando ainda tinha 17 anos, no dia em que ela foi cantar pela primeira vez numa banda chamada Anônimos, que era uma grupo de rock aqui de Lagarto, e que estava se apresentando  no circuito do IFS. Nesse dia Afonso fez uma participação, interpretando uma canção do Nirvana, e Letícia ficou encantada. Logo depois, Letícia e Afonso começaram a participar de grupos de amigos comuns, e ai os dois foram se conhecendo e criando um elo mais forte, até cantarem juntos pela primeira vez num bar da cidade, que já fechou e que se chamava Plaza. Na ocasião, Letícia pediu e cantou junto com Afonso uma música de autoria dele, que tem por título Amada Meretriz. Ali a amizade se consolidou e os dois seguiram juntos pelos caminhos da música. 

Fora de Lagarto, Letícia chegou a cantar em Canindé do São Francisco, fazendo participações em apresentações de bandas local, e tem recebido propostas para cantar em cidades circunvizinhas. Nossa intérprete pretende sim ter um repertório próprio, e, para isso, há mais de um ano vem fazendo músicas com letras que refletem coisas íntimas, e as pretende gravar assim que perceber que as melodias estão com a cara de Letícia. Nesse trabalho autoral, Letícia tem composto em parceria com Camilo Santana e Danilo Duarte, da banda Estúdio Box Azulejo. O grande desejo profissional de Letícia é que o lagartense venha a valorizar mais seu trabalho e os dos artista da terra, pois eles (os artistas, que têm feito trabalhos lindos!) precisam de um olhar mais atento, e necessitam, mais que tudo, de oportunidade, do carinho e do aplauso do público local. 

Letícia rodopiando para "seu" Carcará
Em sua origem latina, o nome Letícia significa alegria, prazer e felicidade. A alegria em Letícia se manifesta quando ela toma do microfone para caetanear: "...Tava por acaso, ali não era nada/Bunda de mulata, muque de peão/Tava em Madureira, tava na bahia/No Beaubourg no Bronx, no Brás e eu e eu e eu e eu/A me perguntar: Eu sou neguinha?". O prazer emana de Letícia sempre que ela nos brinda com uma interpretação toda sua de uma canção da "ovelha negra" Rita Lee: "... Amor é cristão/Sexo é pagão/Amor é latifúndio/Sexo é invasão/Amor é divino/Sexo é animal/Amor é bossa nova/Sexo é carnaval...". Já a felicidade... ah, a felicidade!... brota quando Letícia surpreende a todos com seus rodopios no palco para apresentar seu pássaro mais valente: "Carcará/Lá no sertão/É um bicho que avoa que nem avião/É um pássaro malvado/Tem o bico volteado que nem gavião/Carcará/Quando vê roça queimada/Sai voando, cantando/Carcará..."


Fotos: Eduardo Bastos/Afonso Augusto

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

LELLO ARAÚJO: UM EMBELEZADOR DA CIDADE, UM ARTÍFICE DO PINCEL E DO SPRAY


                                                                                                                          Eduardo Bastos


NO MEIO DO CAMINHO TINHA ARTE

Um dia do mês de outubro de 2015, sai de casa e me deparei com a exposição de quadros sobre a qual eu ouvira falar nas redes sociais. Nesse momento, passei apressado e segui meu caminho, lembrando que precisava passar por ali na primeira oportunidade que tivesse. No retorno, não me contive e adentrei a sede da Diretoria Regional de Educação (DR-2) - local que abrigava a exposição de artes de Lello Araújo, intitulada "Lello Lagartense", e fui recepcionado pelo artista em pessoa. Naquele instante me ocorreu uma ideia e, ao invés de percorrer o espaço, apreciando as obras, indaguei ao próprio Lello se seria possível eu fotografar tudo que via ali. O artista não se fez de rogado, me dizendo que eu ficasse à vontade. 

Paisagem urbana em tela pintada por Lello Araújo
Não havia se passado nem quinze minutos desde minha partida do DR-2, e eu já estava de volta, com todos os apetrechos de que necessitava para fazer minhas fotos. Encontrei o artista montando sua moto, de saída para tratar de assuntos pessoais, e comuniquei-lhe que faria meus registros naquele momento. Mal eu havia sentado e retirando a bolsa da máquina do pescoço, fui surpreendido pela presença do artista ao meu lado, esperando pacientemente que eu me aprontasse para entrar em ação. Em seguida, Lello se postou junto a mim e atendeu meu pedido de pousar ao lado de cada tela - e, a cada click, Lello, que mal me conhecia até então, fazia questão de falar sobre inspirações e técnicas empregadas nas obras expostas. Nesse momento também ganhamos a companhia de uma amiga, que tratou de apresentar eu a Lello e Lello a mim, e que contribuiu para que naquela manhã eu deixasse o DR-2 com a sensação de ter ganho a manhã, tanto por ter registrado a estreia de um grande artista, quanto por ter feito mais um amigo - um amigo que é mesmo um sujeito gente fina, educado e atencioso até mesmo com eu, um individuo que captura imagens sem a menor pretensão fotográfica, e que desejava apenas deitar um olhar curioso sobre uma das expressões artísticas daquele artífice do pincel e do spray. 

LELLO ARAÚJO 

Praça da Piedade em recorte de Lello Araújo
Lello Araújo é o nome artístico  de Marcelo dos Santos Araújo, um Lagartense filho de Carlos Lisboa de Araújo e de Vera Lúcia dos Santos, que nasceu e foi criado no bairro Cidade Nova, que estudou durante toda sua infância na Escola Frei Cristóvão de Santo Hilário, e que nunca saiu de sua cidade natal para residir fora. Logo cedo, Lello iniciou carreira como pintor, trabalhando com pinturas artísticas e letreiros comerciais para lojas, até finalmente virar grafiteiro. Em nenhum momento o artista trabalhou em outra área, nem é capaz de se ver exercendo outra profissão. Desde cedo, por volta de 2001, ele percebeu que tinha vocação para o grafite, e  frequentava a escola apenas para fazer desenhos e para perturbar. Não estava nem ai para os estudos - só tirava notas boas em Arte -, apesar de ter chagado a concluir o segundo ano do segundo grau.  

Lello iniciou sua trajetória artística fazendo desenhos em cadernos, até que surgiu a oportunidade de ele fazer letreiros para candidatos a vereador e para o comércio local. Desde a tenra idade, percebeu que tinha o dom para desenhar, e, por isso mesmo, se deixou levar pela profissão, não sendo possível, hoje, se ver exercendo outra atividade. Lello costuma trabalhar por encomenda, até porque se o artista não trabalhar desse jeito ele não sobrevive, já que as coisas estão difíceis, e sobreviver de arte no Brasil é complicado, pois falta incentivos fiscais e, principalmente, apoio dos órgãos governamentais. Nosso artista diz que se realiza mais quando executa um trabalho de forma espontânea, quando faz arte do seu gosto. Mas ele tem consciência também que viver apenas de arte espontânea no Brasil é difícil, e por isso sempre trata de convencer a si mesmo que precisa aceitar encomendas. 

ARTE EM GRAFITE 

Grafite em homenagem a Silvio Romero
Ao falar sobre o grafite, Lello diz que é a arte mais linda do mundo, nascida no subúrbio, discriminada e que hoje virou arte pop. O grafite é mais uma das formas de o ser humano se expressar, homenagear, passar uma mensagem para o transeunte e embelezar a cidade. Hoje, para Araújo, o grafite é o grande amor de sua vida - e para sempre será! (Lello Araújo foi um dos artistas grafiteiros que participou do projeto idealizado pelo poeta Assuero Cardoso, que tinha por proposta envolver e prestigiar os grafiteiros da terra, num trabalho de embelezamento do Colégio Estadual Silvio Romero). 

Lello costuma falar que nunca chegou a fazer curso de desenho ou de pintura. Ele esclarece que já sabia desenhar, já tinha noção de desenho, mas nunca chegou a fazer curso. Sua preocupação foi a de ir se aprimorando, pois, em toda profissão, em toda arte é preciso haver a prática para não se ficar para trás. Muita gente chaga inclusiva a perguntar a Lello se ele fez curso, mas ele diz que o que fez mesmo foi dar curso de grafite, com o apoio da prefeitura.  

Lello revelou que, em seu trabalho com grafite, se referencia em muitos brasileiros, pois hoje o nosso é o país que mais exporta grafiteiros para o mundo. O artista plástico lagartense lembra que o grafite nasceu no Booklin (EUA), e hoje tem grafiteiros do Brasil que dá aula onde a arte nasceu. Lello se espelha muito em Eduardo Kobra, que é um brasileiro famoso, e que atualmente viaja por diversos países fazendo arte. Seu outro referencial é Bankys, que é o grafiteiro mais famoso do mundo, e que - enquanto viajava por países em conflitos armados - pintou em grafite a imagem de um guerrilheiro atirando um buque de flores - imagem que virou símbolo atual da luta pela paz. 

MOTIVAÇÃO ARTISTICA  

A arte que embeleza também denuncia
O que motiva Lello a fazer arte é a necessidade de mostrar a cultura do povo para o povo, para o povo enxergar o quanto a cultura é grande. As dificuldades sentidas no cotidiano pelos brasileiros também são fontes de inspiração para compor sua arte. Lello Araújo chegou a produzir uma obra em grafite para o Sarau da Caixa D'Água, e ainda há um proposta de Alfonso Augusto (um dos organizadores do Sarau), para que ele grafite as colunas que sustentam o reservatório de água que costuma abrigar o mais importante evento cultural de nossa cidade na atualidade.  

QUANDO PINTAR SE TORNA UM VÍCIO 

Todo trabalho de Lello tem inicia quando o cliente o procura. O artista então realiza uma pesquisa na Internet, até encontrar uma imagem temática que se aproxime do desejo manifestado pelo contratante. Para a última exposição de quadros que fez, cujo tema era [o município de] Lagarto, Lello diz ter precisado fazer estudo dos locais que ele escolheu para retratar, e também tirou fotos dessas localidades e de pessoas.  

Em 2008, Araújo confeccionou 08 (oito) telas para uma evento que fizeram aqui em Lagarto, e que era uma exposição conjunta, com a participação de vários artistas plásticos da terra: Daniela Pessoa, Altair Alcântara, etc. Logo em seguida o artista parou de pintar telas, porque elas não tinham saída, e ele ainda não tinha nome na praça, não era um profissional conhecido em Lagarto. Depois de perceber que seu nome aos pouco se tornava conhecido, o artista foi tomada pela saudade de pintar - porque, no dizer de Lello Araújo, "pintar acaba virando um vício. Após trabalhar a primeira tela, pode se passar dois ou três anos que o artista acaba sendo invadido pela vontade de voltar a manipular o pincel outra vez". 

O GRAFITE QUE DÁ PRAZER 

Segundo Lello, o grafite se diferencia da pintura em tela por ser uma arte urbana, em que o artista não necessariamente tem que ficar entregue à calmaria das paredes de um quarto. O grafite se difere também por ser a arte do protesto e do embelezamento da cidade. O grafite tem por característica ainda ser uma arte de curta duração - o prazo de vencimento de um grafite é de aproximadamente cinco anos, enquanto uma arte impressa em tela pode resistir por anos a fio. Trabalhar com grafite é a forma de expressão artística que mais dá prazer a Lello. Ele revela que tanto o grafite quanto a pintura em tela estressam demais, já que ambas exigem esforço mental, e, por isso, costuma reversar entre uma forma de arte e outra, como forma de compensar o desgaste físico e emocional. 

QUANTO VALE A ARTE 
Esboço do que irá para a tela

Ao falar sobre seu processo de trabalho, o grafiteiro e pintor diz que, antes de iniciar uma obra, primeiro faz um esboço, um rascunho daquilo que deseja ver impresso na parede ou na tela. Sempre que trabalha pintando uma tela, Lello o faz a partir de uma fotografia, pois o vento, a poeira e outras variações do clima em ambientes externos podem contaminar a tinta a óleo que ele usa. 

O preço de uma tela pintada por Lello Araujo é definido por uma tabela nacional, que estabelece o valor por centímetros quadrado. Sempre que realiza um trabalha em grafite aqui em Lagarto, Lello costuma cobrar R$ 80,00 por metro quadrado - valor que sobe para R$ 100,00, quando o trabalho é executado em Aracaju ou em outras cidades. 

O artista embelezando a paisagem
Lello diz que, ao concluir uma obra em grafite, é invadido por um prazer imenso, como se tivesse acabado de fazer um filho, e afirma que nunca pinta um quadro pensando apenas no dinheiro que ele poderá lhe render - e prova disso é que já chegou a colocar preço em um quadro muito acima do valor real, para evitar assim que a tela viesse a ser adquirida. Ele prefere doar uma obra  a um amigo - que vai zelar, cuidar da pintura com carinho -, do que vendê-la. Lello confessa que, quando vai entregar uma obra ao comprador, sempre repete o mesmo discurso: "Olhe, aqui é como se eu tivesse feito um filho e agora estivesse doando ele para você. Gostaria que você tomasse conta dele como eu tomaria". 

A ANSIEDADE (SERÁ QUE FICOU LEGAL?) 

Um dia Lello Araujo estava em Aracaju, concedendo entrevista para uma emissora de televisão, quando sugeriram-lhe que permanecesse por lá, pintando telas que retratassem pontos turísticos, numa homenagem à capital de todos os sergipanos. Ele voltou para Lagarto com a ideia fixa de fazer esse trabalho, mas, ao aqui chegar, pessoas o aconselharam a primeiro homenagear sua terra, para que quando o artista chegasse em Aracaju alguém não viesse a dizer: "Olha, ele nunca fez nada por sua cidade!" A partir dai Lello criou gosto e, desde o inicio do mês de janeiro de 2015, começou a confeccionar novas telas. Mas esse foi um momento em que ele passou a ter insônia, pois, sempre que concluía uma obra e a botava para secar (o período de secagem de um quadro pintado a tinta óleo é de cerca de um mês), era tomado por grande ansiedade, e precisava ligar para os amigos que o apóia para ter certeza de que a pintura ficara legal). 
Pintura retrata onde o povoamento teria 

Esse trabalho de Lallo Araújo lhe provocou expectativa e ansiedade por antecipação, mas resultou na Exposição Lello Lagartense, que acabou recebendo um público muito superior ao esperado - a ponto de o artista chegar a afirmar que "Lagarto gosta de arte e apoia os artistas da terra". Nessa exposição, 17 obras foram colocadas à venda e 13 foram adquiridas. Atualmente, Lello pinta novas telas para atender pedidos de clientes que não conseguiram adquirir os quadros que desejavam ao longo do período em que durou a exposição em questão. O artista tem também a intenção de em 2016 fazer uma homenagem a Aracaju, pintando pontos turísticos e históricos (como Croa do Boré, Orlinha do Pôr-do-sol, Mercado Tales Ferraz, Edifício Estado de Sergipe (Maria Feliciana) e Ponte Aracaju-Barra dos Coqueiros), além de personalidades. 

GRAFITANDO E PINTANDO COM O MELHOR QUE HÁ

No trabalho que faz usando a técnica do grafite, Lello utiliza latex e bisnaga, com o diferencial de sempre fazer uso de material de qualidade, o que de melhor encontra no mercado. No final de cada obra em grafite, são dadas duas mãos de um verniz apropriado para parede, garantido assim que a pintura tenha uma durabilidade de, no mínimo, três anos. Quando pinta telas, Lello trabalha com o que há de melhor em tinta óleo (algumas dessas tintas ele compra diretamente da cidade de São Paulo; outras são importadas). Um quadro leva de quinze dias a um mês para secar superficialmente, enquanto sua secagem total pode exigir 50 anos. 

ARTE DO HOJE PARA O AMANHÃ

Lello é o artista da arte breve e da arte perene - daquela que é capaz de atravessar nosso tempo. Seu trabalho eterniza contextos e mostra-nos estilos de vidas de gerações do presente e do amanhã. Suas investidas sobre paredes e quadros revelam para Lagarto e para Sergipe um talento nato, um artista plástico de pinceladas e grafitagens comprometidas em denunciar, mas também em embelezar paisagens e personagens que cercam todos nós. 

Que a obra desse artista lagartense continue colorindo nossos caminhos e eternizando o presente que amanhã será o passado que não volta mais.


Fotos: Eduardo Bastos 
           Arquivo pessoal de Lello Araújo

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Grupo Escolar Silvio Romero: Um grito de Socorro

Prédio que pertence ao estado segue abandonado e invisível aos olhos do poder público.


Eduardo Bastos


Durante alguns anos de nossa adolescência residimos numa casa localizada na Rua Acrísio Garcez, atrás do Grupo Escolar Silvio Romero. À época, nesse prédio funcionava uma repartição pública, e isso garantia o bom estado de conservação do espaço. Exatamente nesse período estudávamos o ginasial no Colégio Nossa Senhora da Piedade. Sempre que retornávamos da aula matutina era comum um ou outro irmão deixar o material didático sob meus cuidados para escalar o muro desse Grupo. Não havia qualquer perigo naquele gesto, pois, àquela hora, os funcionários que labutavam por ali já tinha saído para almoçar, e o muro que ladeia a lateral e o fundo do prédio é tão largo e regular, que as caminhadas ao longo dele jamais se constituíam em desafios à lei da gravidade. Nos finais de semana e feriados a garotada do entorno costumava pular o muro desse prédio para usar todo seu espaço externo como cenário das brincadeiras de esconde-esconde e bangue-bangue (nesse tempo era comum meninos e meninas invadirem as ruas a qualquer hora do dia ou da noite para brincarem sem o menor receio de se tornarem vítimas da violência urbana).
Os registro historiográficos disponíveis nos esclarece que o Grupo Silvio Romero teve sua construção iniciada no ano de 1923, e foi o primeiro patrimônio público a receber o nome desse grande pensador lagartense. O governador Gracco Cardoso (1874 –1950) foi quem deliberou que esse Grupo fosse construído em cima dos escombros da antiga cadeia pública da cidade. Em dezembro de 1924 o prédio foi inaugurado. Ao logo dos anos as dependências do Grupo Escolar Silvio Romero serviria como unidade escolar, memorial e biblioteca pública, e até o ano de 2011 ainda permanecia sob a responsabilidade do estado e município.

O professor e historiador lagartense Claudeflanklin Monteiro, citando o estudioso Miguel André Berger, nos esclarece que "o Grupo Escolar Sílvio Romero foi um planejamento para atender não só a uma concepção pedagógica de época, marcada pelo método intuitivo e pelo método analítico de ensino da leitura, mas também para enfatizar a feição monumentalizante da arquitetura de então, haja vista a presença marcante da águia, símbolo do governo Graccho, como um pássaro que enxerga longe e voa alto - pretensões ideológicas e guias daquela profícua administração estadual.

Seu esvaziamento educacional teria ocorrido em função de questões políticas. Os governos que se sucederam a Graccho, em especial até a primeira metade da década de 50, eram adeptos do getulismo, e como de praxe, tentaram apagar a memória das ações administrativas de seus inimigos políticos. Dos anos 60 aos anos 80, especialmente com a construção da nova sede do Grupo Sílvio Romero (mais moderno e mais amplo), na Av. Francisco Gracez (hoje Escola Estadual Sílvio Romero), o prédio foi de tudo um pouco: de local para aprendizagem de cursos de secretariado e de corte e costura a repartição pública (tanto estaduais como municipais)." 

Por praticamente toda a década de 90 o Grupo Escolar Silvio Romero mergulho num estado de total abandono, e se transformou num ponto de usuários de drogas e mendigos. No início do ano de 1999, esse prédio passou por uma grande reforma e o secretário estadual de educação da época, Luiz Antônio Barreto o entregou aos lagartenses dia 20 de abril novinho em folha. Nesse momento, esse espaço passou a abrigar o Memorial e a Biblioteca Pública do nosso município. No início de 2010, voltou à baila o discurso de que a primeira escola pública implantada em Lagarto teria que desocupar esse prédio, face à necessidade de ele passar por nova reforma, que corrigisse principalmente problemas relacionados a infiltrações. Nesse instante, outras vozes se levantaram, contrárias ao funcionamento da Biblioteca e Memorial nesse local, sob a alegação que o prédio não oferecia acessibilidade a pessoas com dificuldade de locomoção, cadeirantes e idosos.

A retirada da Biblioteca e do Memorial do Grupo Escolar Silvio Romero nos início do segundo semestre de 2010 fez com que a existência desse prédio passasse a ser ignorado por todos os entes responsáveis pela manutenção e preservação do patrimônio público. O mato então cresceu e tomou conta de cada canto desse lugar. O lixo e as folhas - que caem sem parar das árvores frondosas que o fronteia - se acumulam por todos os espaços. Portas e janelas, desgastadas pela ação inclemente da chuva e do sol, já não representam obstáculos aos que costumam invadir o prédio onde outrora filhos ilustre de nossa cidade iniciaram suas instruções. Caminhos de papelões foram construídos por entre o matagal para que os usuários de crack e de outros entorpecente transitem dos muros ao prédio do Grupo Silvio Romero sem qualquer obstáculo. A porta principal desse prédio quase nunca se fecha, talvez porque os viciados que costumam habitar ocasionalmente o Grupo Silvio Romero contam com a certeza de que ocupam território neutro, relegado ao esquecimento para todo e sempre.

Nos contatos que tivemos com pessoas que foram ou que ainda são ligadas a órgãos públicos do nosso município, nos foi dito que em meados da década de 1990 esse prédio passou dois anos sem o seu telhado, exposto às intempéries da natureza. Pessoas que trabalham na região nos informaram que dias atrás a prefeitura realizou intervenção no prédio, removendo parte do telhado e o substituindo temporariamente por uma lona. Nos foi dito ainda que o processo de tombamento desse prédio chegou a ser iniciado, mas que ainda não foi concluído. Membros da Secretaria de Cultura do município esclareceram que já se encaminhou projeto à Secretaria Estadual de Cultura, visando reformar e viabilizar a volta do funcionamento desse prédio.

Hoje o estado de conservação do Grupo Escolar Silvio Romero causa indignação àqueles que amam lagarto, pois trata-se de um patrimônio público, localizado no coração da cidade, relegado ao abandono, e provocador de más impressões nas pessoas que nos visitam. Não são poucos os largartenses que costumam expressar no cotidiano a preocupação com a possibilidade real de a qualquer momento esse prédio sofrer um incêndio, uma vez que seu piso é todo em madeira, e haja vista ainda que os usuários de crack e de outras drogas que ocupam esse local costumam usar fósforos, isqueiro e velas durante as práticas de seus vícios. E se um dia as labaredas lamberem esse prédio de forma repentina e incontrolável, restará aos que residem nesse município tão somente lamentar essa perda patrimonial, sob o vislumbre de um cenário de escombros e cinzas.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015



CAJAZEIRAS

UMA MATA QUE ENCERRA MISTÉRIOS, MAS QUE NOS OFERECE O AR MAIS PURO QUE HÁ

Cajazeiras é um povoado que fica a 18km do centro de Lagarto. Quem chega a esse lugar trafegando por uma de suas estradas vicinais percebe de imediato que ao longo do tempo o homem agiu sem dó nem piedade em desfavor da mata nativa da região. A maioria dos que habitaram ou habitam essas terras fez uma opção clara pela devastação indiscriminada. Sendo assim, a mata acabou por dar lugar a roças e fazendas de pastagens rasteiras. A derrubada de árvores centenárias deu lugar também à pecuária, ovinocultura e a uma agricultura basicamente de subsistência. Roças e fazendas de grandes e médias extensões foram os tipos de ocupações escolhidos por agricultores e pecuaristas que se fixaram por essas bandas do território lagartense.

Sempre que chegamos ou deixamos Cajazeiras, o cenário por onde trafegamos é o de terras nuas, num descampado de perder de vista. A paisagem cabe num cartão postal, mas é ecologicamente desoladora. Apenas aqui, em terras da família dos Oliveira (dos irmãos Irineu, Alberto, Rogério e Erineusa) é que se fez uma opção clara e feliz pela preservação - que enche a paisagem de encanto e vida. A mata nesse espaço de chão se aproveitou bem da determinação preservacionista dos Oliveiras e os troncos das arvores ganharam altura, encorparam e a cada dia se fecham mais, num emaranhado de galhos e cipós. O resultado disso é que, sempre que chagamos na boca dessa mata, somos recebidos por ela com um abraço tão reconfortante e ameno, que esquecemos o sol abrasador e o calor insuportável que deixamos lá fora. Dentro dessa mata também vivemos a experiência única de sentir o ar poluído e viciado que trazemos em nossos pulmões ser renovado - como que num passe de mágica -, e substituído por outro mais limpo, mais leve e restaurador da sensação de o quanto é bom respirar.

Vez em quando tenho a oportunidade de ir a Cajazeiras e gosto em especial do meu encontro com essa mata. Ando devagar porque aqui não tenho pressa e quero que dure o máximo meu reencontro com a barriguda, o jatobá, o pau d’arco amarelo e roxo, o figo, o juazeiro, a jurema, a amêndoas, o figo, o caixão, o flamboyan, o itapicuru, o cedro, a laranjeira brava... Também preciso de tempo para admirar os cipós que tocam o chão e se estendem para o alto, até topar as copas das árvores. Quero que dure ao infinito esse tempo que fico ouvindo o som característico dos trocos das árvores mais altas se dobrando e se recompondo, rendendo-se e reagindo à força do vento. Necessito de muitos minutos ainda para penetrar a mata em passos lentos, pisado num tapete quase compacto de folhas secas caídas e em processo de decomposição. Mas preciso muito - e também - diminuir as forças de minhas pisadas, para evitar que cobras, lagartos e outros animais rastejantes fujam de mim apressados, confundindo-me com os predadores mais temíveis desse arvoredo.

Deixo a mata apenas quando o sol ameaça entrar em seu crepúsculo vespertino. Mas mesmo de fora continuo a espreitar-lá. Agora fico no terreiro testemunhando a noite avançar e a lenha da fogueira se desfazer em labaredas e cinzas. Ouço Xaguai, Elomar, Vital Farias, Geraldo Azevedo e Elba Ramalho enchem o ar de cantorias, enquanto rio das anedotas e estórias dos amigos donos do lugar, na companhia do único copo de vinho da noite. Nessa hora, a lua brilha imponente, iluminando tudo ao redor, e as lembranças da cidade me chegam apenas através das luzes artificias que brilham ao longe. O avançar da noite culmina com o momento de apreciar, mas também de respeitar a intimida da mata da Cajazeira, deixando que ela fique ali soturna e quieta, fechada em seus mistérios profundos e indecifráveis.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

UMA PRAÇA, UMA CAPELA E DOIS PERSONAGENS QUE UM DIA SE CRUZAM PARA SELAREM SEUS FINS TRÁGICOS


Por muitos anos de minha vida eu e minha família moramos na praça Filomeno Hora. Depois fomos residir na Praça Sebastião Garcez, que é uma praça continua à Filomeno Hora. Nesse tempo era aqui que tudo acontecia. Boa parte do comércio de nossa cidade se concentrava aqui. Todos os shows, festas e concentrações populares aconteciam aqui. Nos dias de sábados e domingos, assim que terminava a missa na matriz, todos os jovens se dirigiam à praça Filomeno Hora para namorar, encontrar colegas, colocar os papos em dia, ou simplesmente desfilar para mostrar as roupas e os sapatos que tinham acabado de adquirir. Como não tínhamos a violência que temos hoje, a juventude desfilava para lá e para cá ao redor da praça ou por entre os canteiros, sem qualquer preocupação. O movimento na Filomeno Hora só tinha fim perto das vinte e três horas. Nesse momento tudo silenciava, e apenas um ou dois guardas sonolentos cochilavam sob o sereno das madrugadas.


Praça Filomeno Hora - 2014
No tempo em que residia na Filomeno hora nunca tive curiosidade em saber porquê essa praça recebera esse nome. Apenas muitos anos depois é que meu interesse viria a ser despertado. É que um dia eu visitava o Povoado Santo Antônio na companhia do meu amigo Paulo Oliveira, quando ele me convidou para visitar um senhor que é se tio, que se chama Turibio – que é um ancião que guarda na memória de boa parte da história do povoado Santo Antônio, e que tem sua casa localizada entre duas capelas e um cemitério.
Seu Turibio é um dos guardiões da memória do seu povoado
Para que compreendêssemos as razões para que uma das capela estivesse naquele local, seu Turibio teve que rememorar o passado. Ele nos contou que em 1902 Filomeno Hora era advogado e juiz de direito de lagarto. Às 16h do dia oito de janeiro do ano em questão, Filomeno, atendendo a apelos de conhecidos, se dirigiu à feira da cidade - que acontecia nas imediações onde hoje funciona a Escola Reunida - para que pudesse interferir numa confusão, em que alguns soldados espancavam e ameaçavam prender dois funcionários do marido da irmã do magistrado, de nomes Severino Ferreira Duarte e Aristides dos Santos.

A chegada de Filomeno Hora à praça foi providencial para pôs fim ao conflito, mas desagradou os policiais, principalmente a Manuel Posthumo Monteiro - que ocupava um posto superior à dos soldados envolvidos no tumulto, e que era tio do homem que tiraria a vida do juiz ainda naquele dia fatídico. Utilizando-se do seu poder, Manuel ordenou aos policiais que fossem buscar armas para reprimir aqueles que ousaram interferir na briga formada no meio da feira.

No retorno dos policiais, aquele que se mostrou mais exaltado foi Adolfo Monteiro. Quando os soldados tentaram intimidar os presentes gritando "afastem-se, senão atiramos", receberam como resposta do magistrado um desafio perigoso: "pois então atirem". O policial Adolfo Monteiro se antecipou aos colegas de farda e alvejou o juiz com um tiro de fuzil que lhe atravessou o corpo.

Após perceber que tirara a vida da autoridade maior do judiciário da cidade de Lagarto, Adolfo evadiu-se do local, e foi parar na Praça do Gome - onde quase veio a ser capturado. Depois Adolfo empreendeu fuga maior e foi se esconder na casa de uma irmã, residente no povoado Santo Antônio.

Às 22h do mesmo dia do assassinato de Filomeno Hora, seu irmão, Alcino Monteiro, se fez acompanhar de alguns amigos armados e saíram no encalce do assassino do juiz. Encontraram-no e o retiraram do esconderijo mesmo sob protestos dos proprietários da residência. Adolfo foi então arrastado para fora da casa da irmã, quando então tiveram início as torturas - que se prolongaram madrugada afora, e só chegaram ao fim quando Adolfo foi atingido por um tiro fatal, no corredor que dá acesso ao povoado Santo Antônio.
Capela construída em memória de Adolfo Monteiro 
Aquela conversa informal na residência do seu Turibio pela primeira vez me fez compreender as razões para que o espaço onde residi por uma boa temporada de minha vida se chamasse Filomeno Hora (antes do assassinato do juiz em plena praça da feira essa espaço se chamava "Praça Forca", em razão de haver mesmo uma forca no meio da praça. Nesse papo com o tio do meu amigo, também fiquei sabendo que no local em que o assassino de Filomeno Hora morreu os moradores da região ergueram uma cruz - e a denominaram de "Cruz de Adolfo". Depois construíram uma capela para que os moradores do Santo Antônio pudessem rezar pela alma daquele que pagou com a própria vida por uma vida que estupidamente ceifou.